sábado, 28 de julho de 2007

Questão de ênfase?

Hoje acordei cedo. Muito mais cedo do que gostaria. Decidi tomar o café da manhã assistindo tv, e tive a oportunidade de assistir dois desses programas evangélicos que passam nas manhãs de sábado.

Percebi um contraste absurdo. Um dos programas era de uma Igreja de linha reformada, e o outro, com tendências mais neopentecostais. Talvez essa descrição já comunique muito para alguns, mas a observação das diferenças torna a coisa toda bem mais clara.

O primeiro programa (reformado) priorizava a pregação. A Palavra de Deus era o centro. O espaço relativamente curto de tempo do programa foi preenchido com a pregação do conselho de Deus revelado nas Escrituras. O programa seguinte ficou em um misto de música, testemunhos, leitura de e-mails, e muita, muita propaganda. Nada de Palavra.

Isso revela tendências das igrejas de nossos dias. Certamente as massas preferem o estilo mais “despojado” do segundo programa, mas isto só revela que elas preferem algo diferente da Bíblia. Talvez até “um pouco de Bíblia”, mas somente naquilo que for conveniente. Que tristeza.

Alguns diriam que a diferença entre os programas é apenas uma questão de ênfase. Eu poderia concordar, se definíssemos da seguinte forma: o primeiro enfatiza a Bíblia, o segundo enfatiza qualquer outra coisa.

Agora, se por “uma questão de ênfase” o interlocutor quer afirmar que no fim das contas os programas são iguais, eu preciso discordar.

Questão de ênfase? Duvido.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

A Resposta da Dor

Muitos assistiram, horrorizados, às notícias da tragédia que aconteceu em São Paulo na última terça-feira, com o vôo 3054 de uma conhecida empresa aérea.
Tragédias são chocantes, e geralmente nos fazem perguntar sobre o porquê de sua existência. A Bíblia diz que devemos estar prontos para dar a razão da esperança que está em nós, e, diante de questionamentos que envolvem a existência e o caráter de Deus, precisamos ter uma resposta firme e bíblica.
Por que isso aconteceu? Deus não existe? Ou se Ele existe, por que Ele permitiu que isso acontecesse?
Algumas posturas são observáveis diante da pergunta. Há quem enfatize o lado da solidariedade, e, tomado por um sentimento de caridade e compaixão, esqueça a soberania de Deus, como determinado pastor, que se perguntou, diante de toda a rede internacional de computadores, se Deus piscou no momento do acidente, afirmando que a sua [do pastor] insegurança humana estava gritando.
No extremo oposto há os “justiceiros”, aqueles que, despidos de qualquer compaixão, proclamam a ira a justiça de Deus, categorizando a tragédia como “juízo” do Senhor, castigo merecido.
Penso que, antes de qualquer coisa, a hora é mais de ouvir do que falar. Ouvir é sempre uma bela forma de demonstrar amor. Mas, após ouvir os lamentos, e as perguntas feitas, há o momento de nos manifestarmos verbalmente. Nenhuma das posturas anteriores realmente responde o problema de forma bíblica. O primeiro exemplo peca por negar a soberania de Deus. O segundo, erra por inferir que tudo o que acontece de ruim é juízo do Senhor (no caso de Jó, por exemplo, era bênção).
A conclusão é que não podemos dizer com certeza por que Deus permitiu isto. Mas podemos nos firmar em pelo menos três respostas bíblicas que gritam alto diante de situações assim: (1) Não há acidentes para Deus. Em Sua onisciência, onipotência, e soberania, Deus controla todas as coisas, de modo que nada acontece sem o Seu aval (Mt.10.29). (2) Deus permite que as consequências das ações humanas aconteçam. O Senhor, em Sua vontade permissiva, permite que negligências de homens alcancem o seu fim natural. Desta forma, a omissão, passividade, falta de atenção ou responsabilidade pode trazer consequências ruins para uma pessoa ou coletividade (Pv.1.19, 3.35, 6.11) (3) Todas as coisas contribuem juntamente para o bem dos que amam a Deus (Rm.8.28). Embora não saibamos o papel que tais eventos trágicos desempenham nos planos do Altíssimo, sabemos que Ele age por meio de situações assim.
Somente se estivermos solidamente fundamentados na Palavra de Deus podemos dar respostas consistestes, e dar esperança e conforto àqueles que precisam de apoio em momentos tristes.
Oremos pelas famílias que sofrem nestes dias difíceis.

SOLI DEO GLORIA.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

A anatomia de um carro batido

A relatividade com a qual encaramos o tempo é muito interessante. Algumas horas para uma pessoa podem parecer dias, enquanto que, para outra, parecem segundos. Com os minutos não é diferente, e mesmo com os segundos esta realidade é apresentada. É incrível como cinco segundos parecem muito tempo para corredores, nadadores, e afins. Cruzar a linha de chegada poucos segundos depois de um adversário é atestar a lerdeza e uma grande desvantagem em relação ao oponente. Segundos são encarados como “tempo demais” para quem compete em uma corrida de 100 metros rasos. A outra realidade também é facilmente encontrada: cinco segundos não representam nenhuma alteração significante no tempo. Em poucos segundos não é possível fazer muita coisa, e se você está lendo um livro, almoçando, conversando, etc., cinco segundos a mais ou a menos dificilmente farão alguma diferença.

Eu aprendi que cinco segundos podem ser pouco tempo, mas são suficientes para causar um “belo” estrago. Semanas atrás, ao dirigir em direção à minha casa, desviei a atenção por algo em torno de cinco segundos. Olhei para o lado, sem nenhuma razão relevante. Não havia nada especial na paisagem à minha esquerda, mas eu simplesmente perdi o foco do trânsito. Nesse pequeno intervalo de tempo, eu não percebi que o carro à minha frente estava parando. Voltei os olhos novamente para a minha pista, e fui surpreendido com a imagem de um veículo parado. Pisei firme no pedal do freio, mas era tarde, ouviu-se apenas a sinfonia de pneus na avenida, encerrada pelo som escatológico da colisão: o fim havia chegado. Como o erro foi meu, nada havia para ser usado como desculpa. Mas Deus permitiu que o prejuízo ficasse apenas do meu lado, livrando o outro carro de qualquer marca séria.

O hábito de fazer uma leitura dos eventos diários como metáforas da vida cristã permanece, e não foi preciso muito esforço para aprender lições importantes a partir deste triste acontecimento.

Assim como tirar os olhos da estrada por cinco segundos pode ser fatal, tirar os olhos de Cristo, ainda que por um mísero segundo, pode causar um grande estrago na vida cristã. Existem muitos exemplos ao longo da história da Igreja que comprovam o ponto. No fim da antiguidade e ao longo da Idade Média, uma parcela da Igreja desviou a atenção de Cristo para contemplar a estrutura e poder eclesiásticos (hierarquias). O resultado disto foi o declínio da Igreja, sua secularização, a perda de sua identidade, a introdução de uma politicagem até hoje encontrada, e a desonra a Deus. Uma parte da Igreja do século XX tirou os olhos de Cristo e olhou para os pobres. O resultado disto foi uma teologia marxista extremamente perniciosa e anti-bíblica, que rejeitou a salvação da alma para salvar o corpo.

Da mesma forma, por meio de movimentos contemporâneos como o “seeker sensitive” (sensível aos “interessados”), corremos o risco de perder o foco, desviando a atenção de Cristo, e novamente colocando o homem no centro de nossa vida, culto, e teologia. Os efeitos disto não serão diferentes dos citados nos exemplos anteriores. Uma igreja fraca, sem identidade, sem verdade, nem piedade. Tudo isto pode acontecer se perdermos Cristo de vista por um segundo. Ele precisa ser o centro durante cada momento de nossa existência, e a menos que levemos isto a sério, estaremos nos expondo a um terrível risco, que trará prejuízos muito maiores do que aqueles de um carro amassado.

Mas se de alguma forma este erro já aconteceu, e os danos já foram feitos, ainda há esperança. O carro acidentado não precisa ficar assim para sempre. Na semana seguinte ao acidente levei o carro para a oficina, e o recebi como se nada tivesse acontecido, exceto pela marca indelével em minha memória. Aqueles que perderam o foco podem e devem retornar imediatamente para Cristo, a fim de que suas vidas sejam restauradas, e eles sejam testemunho vivo do poder renovador do Cristo.
“Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra” Is. 45.22a