quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Carne e osso

Provavelmente todas as semanas temos frases ou palavras que se sobrepõem ao nosso vocabulário usual, e se apresentam com maior impacto sobre a história de nossas vidas. Seja por sua beleza, ou pelos traumas causados, determinadas expressões ficam "cravadas" na mente e no coração, impondo-se sobre as outras letras em contato conosco. Como crianças cheias de energia elas correm de um lado a outro, vão e voltam em nossos pensamentos, e demonstram a força de sua presença em cada emoção repentina despertada por sua lembrança.

Esta semana eu ouvi por mais de uma vez, e através de mais de uma pessoa, que sou gente de "carne e osso", e que, por isso (ou relacionado a isso) tais pessoas se sentiam à vontade para conversar, expôr suas dificuldades, tristezas e alegrias, ou simplesmente sentirem encorajamento ao perceberem que "gente normal", passando pelas mesmas lutas que os jovens da sua idade, pode se dedicar verdadeiramente a Deus.

Escrevi há alguns dias sobre a necessidade de aprendermos a ouvir o outro. Seguindo esta perspectiva, é preciso aprendermos a viver sem hipocrisia e falso moralismo, sem a aparência arrogante que distancia as pessoas, e com a singeleza daqueles que transmitem segurança e tranquilidade para os aflitos que precisam conversar.

Longe de achar que eu tenha atingido nível sequer aceitável nesta área, contei o meu exemplo apenas para introduzir o assunto, e voltar os nossos olhos para Jesus. Ele poderia ouvir alguém falar que roubou, ou se prostituiu, ou tinha crises em sua fé, com uma doçura exemplar. O Messias nunca foi passivo ou omisso em relação ao pecado alheio. Ele denunciou o erro com a firmeza de um profeta, e, ao mesmo tempo, criou um ponto de contato com os pecadores, através do qual era bom e seguro estabelecer um bate-papo com o Mestre.

Imaginemos Jesus conversando com um garoto que namora uma não-crente. Ele saberia ouvir o rapaz, demonstraria atenção e compreensão em determinados pontos, como a beleza do relacionamento entre um homem e uma mulher. Ao mesmo tempo, o Senhor indicaria o caminho da santidade com a precisão cirúrgica de quem promove a cura.

Diante de uma adúltera, Jesus reconheceu que todos cometem pecados, e por isso estão em situação deplorável no que diz respeito ao seu relacionamento com o Pai. Ainda assim, o Mestre pôde olhar nos olhos da "pecadora aliviada" e dizer: "não peques mais".

Ser gente de carne e osso é assumir as próprias fraquezas e limitações, é não tentar fingir uma santidade inexistente, é reconhecer que os pecados das pessoas à nossa volta poderiam, sem muita dificuldade, ser nossos.

O teólogo Jonathan Edwards nos deu um belo exemplo disto. Ele escreveu algumas "resoluções" - pontos que ele se propôs a seguir enquanto vivesse. O oitavo ponto de suas resoluções era:

Resolvi ser a todos os níveis, tanto no falar como no fazer, como se não houvesse ninguém mais vil que eu sobre a terra, como se eu próprio houvesse cometido esses mesmos pecados ou apenas sofresse das mesmas debilidades e falhas que todos os outros; também nunca permitirei que o tomar conhecimento dos pecados dos outros me venha trazer algo mais que vergonha sobre mim mesmo e uma oportunidade de poder confessar meus próprios pecados e miséria a Deus. (grifo meu)

Edwards tinha seus 19 anos quando começou a escrever tais resoluções. Era um "jovem normal".

Ser assim, é não somente demonstrar suas fraquezas, mas perseguir insistentemente a santidade. Não adianta nada exibir limitações e falhas, se não há uma perspectiva clara de paz com Deus. Quem fica simplesmente demonstrando os seus erros e não aponta para o que é certo, promove o pecado e envergonha o evangelho.

Neste ponto alguns tentarão, forçadamente, dizer que estou estimulando algum tipo de arrogância e orgulho espiritual. É mentira. Criar o ponto de contato com as pessoas à nossa volta nunca pode ser pretexto para o acômodo com o pecado.

Finalmente, para não me prolongar mais sobre o assunto, a máxima de Lutero sintetiza o ponto. Ele se classificava como "simul justus et peccatore" - ao mesmo tempo justo e pecador. Quem é de carne e osso peca como todos os homens, e não finge ser perfeito, mas se reconhece justo pela obra de Cristo, e isto permeia cada aspecto de sua vida, traçando o caminho da santidade, pelo qual ele trilhará até o encontro com o doce Senhor na eternidade.

Um comentário:

O PENSADOR disse...

Bom Texto Allen. E simplesmente, excelente, a inclusão do pensamento de Edwards entre suas linhas...

MB

Graça e Paz...