quarta-feira, 8 de julho de 2009

O terrorista

Já falei em algum lugar que o calvinista é um ser folclórico. É o currupira eclesiástico, o unicórnio da fé. Citei estórias de pessoas preocupadas porque os calvinistas estavam ensinando “premonição” na igreja, e não duvido que alguém esteja investigando seriamente atentados terroristas causados por estes fanáticos da predestinação.

Mas não era isso o que eu queria dizer. Lembrei-me de um episódio que merece ser relatado. Estava eu passeando no pátio de uma escola quando encontro o Júnior. Ele é um típico estudante colegial, com a ingenuidade daqueles que acreditam em todos. Eu pensei em associar o fato de ser estudante colegial com a ingenuidade, mas logo percebi que isso não existe. O importante é que o Júnior era assim.

Abriu um sorriso de longe para mim, mas logo percebeu o que estava fazendo e fechou a expressão. Chegou bem perto e falou em tom sigiloso: “Ei Allen, é verdade que você está acreditando nesse negócio de calvinismo”?

Era isso. Alguém espalhou a notícia de que eu estava crendo nas perigosas doutrinas da Graça, e o Júnior, coitado, logo se preocupou comigo. Falou em tom confidente, meio preocupado com a minha postura, meio vigilante para não ser ouvido ao falar sobre o assunto.

A predestinação é tabu maior que sexo em algumas igrejas. Esta lá a irmãzinha psicóloga ou sexóloga a rasgar o verbo em suas elucubrações sobre a prática sexual e a sua importância no contexto do casamento, bem como sobre a validade da educação sexual nas escolas, e o debate sobre “detalhes picantes” entre adolescentes da igreja. Mas falar de predestinação já é demais.

Voltei os olhos para o garoto. Aquela pergunta era muito emblemática. Ele nem falou “acredita”, usou a expressão “está acreditando”. Então respondi em alto e bom som: “Mas é claro que eu creio nisso, cara!”. Ele murchou com uma flor de copo d'água. Saiu cabisbaixo. Eu me tornara um terrorista.

4 comentários:

Roberto Vargas Jr. disse...

Meu caro Allen,

Obrigado pelo relato. Faz com que eu não me sinta sozinho. Pois, como você sabe, por chamar-me calvinista eu me tornei "uma tragédia surda e muda, sem compaixão e bom senso, além de ter uma visão absolutamente distorcida do Evangelho". E mais, sou, muito provavelmente, um "fundamentalista orgulhoso e maluco, um doido varrido, quase um terrorista".

Mas você está certo. Não devemos desanimar. Devemos mesmo ser imitadores de Calvino em tudo que ele foi imitador de Paulo, lembrando da própria recomendação paulina (I Co 4.16, 11.1).

Ah, e obrigado por indicar o blog numa postagem anterior.

No amor do Soberano,
Roberto

Luiz Fernando "MokoShock" disse...

Excelente post! Gostei do tom de suspense do texto... hehehe...
E é bem verdade o que você escreveu, a predestinação é um tabu em diversas igrejas, e tem gente que tem até medo de chegar perto desta doutrina, porque vai acabar vendo que ela é bíblica... e depois, o que fazer? Tentar refutar de tudo quanto é jeito ou se entregar de vez e começar a ver a Bíblia com outros olhos, com lentes moldadas pela Graça!?

Gostei! Me vez lembrar quando Deus abriu meus olhos para a doutrina reformada, e da díficil mudança que é sair do arminianismo e se enveredar pelas cartas de Paulo, e começar a ler a Bíblia de uma ótica completamente diferente...

Grande abraço, que Deus continue te abençoando grandemente!

Luiz Fernando "MokoShock"
http://lfernandocr.blogspot.com

cincosolas disse...

Allen,

Foi com grande prazer que li seu texto. Peço desde já autorização para reproduzí-lo na íntegra em meu blog, com os devidos créditos e referência.

Em Cristo,

Clóvis

Anônimo disse...

Quero concordar com o Roberto Vargas: "obrigado pelo relato. Faz com que eu não me sinta sozinho". O pior disto é quando um pastor se sente assim! Você olha para a sua denominação histórica, vê de tudo (células - não tenho nada contra, desde que não sejam um fim em si mesmas; quebra de maldição, "profetadas e revrelações", etc.) e quando você esboça em falar algo é sumariamente "assassinado de forma branca", ou seja, é excluído, deixado de lado, impedido de exercer o ministério. Querem a mediocridade porque desta maneira é mais fácil controlar o "gado" (o membro da igreja) para agradá-lo e dzimiar sempre. Triste, triste...