segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Beleza, unidade e sentido


Em 1979, Francis Schaeffer e Colin Duriez trocaram correspondências a respeito da doença do fundador de L'Abri. Em 1984 ele faleceria, como resultado do câncer. Mas na carta escrita por Schaeffer naquele período havia uma belíssima declaração:

Como é bom ter uma teologia na qual não há tensão entre usar a melhor medicina possível e olhar diretamente para o Senhor, buscando a resposta das orações. (Duriez, Francis Schaeffer: an authentic life, p.196 - kindle edition)

Isso poderia abrir uma interessante discussão sobre medicina, fé e oração, mas pretendo apontar a direção que, eu creio, Schaeffer pretendia enfatizar. No pensamento cristão consistente, não há dicotomias ou uma separação entre o campo da "graça" e o da "natureza" - uma distinção entre as coisas comuns da vida e as coisas "espirituais".

Os desdobramentos deste ponto são imensos. Schaeffer demonstrou como ele poderia buscar o melhor da medicina e se voltar a Deus em oração simultaneamente, sem crise de que um "devorasse" o outro, por não haver contradição. Do mesmo modo um cristão pode pedir a Deus pela provisão, e trabalhar duramente, compreendendo a unidade entre as duas coisas. Alguém pode (e deve!) ler a Bíblia sem considerar este um momento distante do resto da vida; pelo contrário, como o salmista, toda a experiência da vida no dia a dia passa a ser um exercício de interpretação e aplicação bíblica.

Luiz Rosa no palco. O centro histórico em flor.
Há, no entanto, ainda um ponto específico que eu gostaria de ressaltar. Refiro-me ao grau de enriquecimento da vida em termos de significado e beleza quando esta unidade é percebida e experimentada. Quero ilustrar com a minha experiência da última semana.

Foi realizado em São Luís o 3º festival internacional de contrabaixo, com grandes nomes do instrumento, como o maranhense Mauro Sérgio, o divulgador da coisa no Brasil inteiro - Celso Pixinga, e os norte-americanos Jim e Grant Stinnett (Jim é professor da Berklee - conceituada faculdade de música em Boston), Todd Johnson, e Shane Alessio, além do baterista e jazzista Dom Moio.

Se você parte de uma visão fragmentada da realidade, o festival poderia despertar algumas posturas:

1. Não é algo "espiritual", portanto não irei
2. Não é algo "espiritual", mas é algo "comum", então irei e aproveitarei como algo separado do reino da graça
3. É "espiritual"! Deus está ali falando e se revelando a partir da cultura - o abalo existencial provocado pela música é a Revelação de Deus

As duas primeiras colocam o show no reino da 'natureza', com respostas diferentes. Por ser algo "comum" (não-espiritual), a primeira resposta considera algo desprezível, ou age com indiferença. Há muitos que vivem de modo empobrecido, por não desenvolverem interesse pela criação de Deus em sua variedade. A beleza das artes, a criatividade humana, as profissões e vocações, são todas diminuídas em sua importância pela preferência das coisas "espirituais" - talvez oração e leitura da Bíblia. O cristão nessa perspectiva tem pouca liberdade de vida. É escravo da "vida espiritual", e assim vive sem prazer durante toda a semana, até que chegue o domingo, ou então cria atividades eclesiásticas todos os dias para justificar a sua existência. Essas são as pessoas conhecidas como fanáticos, ou limitados em suas conversas (monotemáticas). Pessoas que, mesmo valorizando as disciplinas espirituais, definiram o escopo de aplicação das Escrituras e limitaram a experiência de adoração na vida. No esforço de tanto glorificar ao Senhor, o fazem menos do que deveriam.

A segunda resposta tenta encontrar o prazer através do "salto". O festival de baixo continua sendo não-espiritual, mas será desfrutado dentro do seu campo secular. Afinal, as coisas de Deus são aproveitadas aos domingos, e as coisas seculares regulam o resto da vida. Esse tipo de cristão pode ser mais versado e articulado no resto das expressões culturais; pode valorizar as artes e as profissões; pode ter a ciência e a filosofia em grande estima, mas tudo às custas da exclusão da Palavra de Deus. Ele busca o valor de cada elemento separado de Deus, e assim também empobrece a sua experiência de vida. Tem um universo de particulares desconectados e sem sentido último. O festival de baixo não tem propósito último e não está ligado ao todo da vida, é apenas mais uma oportunidade solta de satisfação.

O terceiro a responder se aproxima de uma perspectiva Tillichiana (de Paul Tillich e sua teologia da cultura). Ele ainda pensa de modo fragmentado, mas agora eleva a arte ao patamar de cima - o reino do sagrado, ou da graça. Na medida em que as artes o tocam profundamente, e que o seu espírito é alimentado pela beleza dos sons e cores, ele atribui a isto o mesmo peso da Revelação Divina, considerando tal "abalo existencial" como Palavra de Deus. O resultado disso é uma grande abertura cultural, mas a perda da autoridade bíblica, que foi nivelada a qualquer experiência significante. A voz de Deus nas Escrituras é abafada e perdida em meio à adoração das artes e expressões culturais. O cristão passa a ser alguém confuso, direcionado pela estética e sem conteúdos reais de fé.

Jim Stinnett, Shane Alessio, Dom Moio e Todd Johnson
Contra tudo isso está a perspectiva integrada do cristianismo consistente. Um show é um show: Embora haja abalos existenciais e a beleza de tudo aquilo seja tocante, não é a Palavra de Deus. Mas não é por que há distinção entre a beleza do evento e a Revelação, que o festival não tem valor. Pelo contrário, em uma visão unificada da vida, o show tem verdadeiro valor e significado, porque as artes e expressões culturais são instrumentos da graça comum, e apontam para uma beleza e riqueza eternas, encontradas unicamente em Deus.

Eu experimentei um pouco disso. Pude ouvir um grande som, e alimentar não apenas os ouvidos, mas os olhos com a paisagem do centro histórico de São Luís, em uma experiência de beleza tocante. A presença de amigos e de minha esposa tornaram a coisa ainda mais prazerosa e significante, e lá eu via e sentia gratidão a Deus: a vida em sua plenitude é experimentada quando Jesus é o ponto de referência e unificação. Tudo fazia sentido.

7 comentários:

Musika S/A disse...

Q belo texto. Rico e profundo. Sensível e perturbador. Poético e filosófico.... Saúde!

Allen Porto disse...

Obrigado, Silas! Parabéns a você e a toda a equipe pela produção do festival!
Somos seus devedores!
Um abraço

Leonardo Bruno Galdino disse...

Allen,

"ordeno" que você republique isso no 5C. Que texto, mermão! Parabéns!

Abraços!

Allen Porto disse...

Seu desejo é uma ordem! Ou sua ordem é um desejo...?

Já está publicado por lá!

abç!

Clodoaldo Brunet disse...

"...toda a experiência da vida no dia a dia passa a ser um exercício de interpretação e aplicação bíblica..."
Gostei de todo artigo, mas especialmente dessa frase. O grande problema é que a interpretação moderna dos que se encontram dentro da maioria das igrejas, não é bíblica, mas, pragmática. A emoção, os sentimentos e as conveniências de cada grupo estão acima das Escrituras em nome do próprio Deus.

Allen Porto disse...

Essa é uma triste realidade, Clodoaldo.

Precisamos ter a Escritura no conceito mais elevado possível, e também temos que ser consistentes em nossa prática diária.

Abraço

HAUS ARQUITETURA E DESIGN disse...

Fantástico Allen, concordo com os demais comentarios que o estimulam a divulgar esse texto, essa é uma visão bem interessante das coisas que ouvimos falar nas igrejas sobre a música. Parabéns!