sábado, 17 de dezembro de 2011

1 ano como pastor da IPB


Hoje completo um ano de Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). Desde que nasci, até os 25 anos de idade, participei da igreja batista, tendo sido ordenado pastor dessa denominação em 23 de maio de 2010. No dia 10 de dezembro, contudo, saí do campo batista, e fui recebido pela Igreja Presbiteriana do Brasil (Presbitério Leste do Maranhão) em 17 de dezembro de 2010.
Eu poderia escrever um texto sentimental - como outros que já fiz sobre o assunto. Dessa vez quis algo diferente. Correndo o risco de soar narcisista, farei a primeira auto-entrevista do BJC.

* * *

Uma conversa com Allen Porto. Por Allen Porto.

No mesmo canto de sempre, de frente para a parede, quase como uma criança de castigo nos velhos tempos, ele se sentou para perguntar e respoder. Na cabeça, um pouco de dúvida sobre a seriedade daquilo, mas não custava tentar. Não queria deixar a data passar em branco, além de explorar possibilidades novas de escrita. Foi assim que o bate-papo teve início.

BJC: Dizem que apenas os loucos falam consigo mesmo, correto?

Allen: Dizem, mas eu discordo. Lembra do salmista falando consigo na Escritura - "por que estás abatida, ó minh'alma?"? (Sl.42.5). Para o salmista era o contrário da loucura, era um exercício de manutenção da lucidez.

As mãos pararam sobre o teclado. A idéia de um diálogo consigo para manter a "saúde mental" era interessante ao entrevistador-entrevistado. Mas o bate-papo precisava continuar.

BJC: Você sabia que, além deste aniversário do pastorado na IPB, hoje também é o dia do pastor presbiteriano?

Allen: Sei, e acho um belo arranjo. De alguma forma tornou mais significativa essa data para mim, ao mesmo tempo em que me livra do egoísmo - todas as vezes que eu lembrar de meu aniversário como pastor da IPB, terei de lembrar de todos os outros pastores, que comemoram o seu dia nesta data. É mais uma agradável surpresa de Deus, equilibrando o indivíduo e a comunidade para a Sua glória. (Aproveito para dar os parabéns aos meus colegas de ministério!).

Minha ordenação na igreja batista
BJC: Como se deu o processo de transição da igreja batista para a IPB?

Allen: Eu nasci na igreja batista. Meu pai era pastor batista, e assim eu cresci naquela tradição. Fiquei na mesma igreja - a Batista Getsêmani - por praticamente 18 anos. No fim dos 16 e início dos 17 eu conheci a fé reformada e abracei esta perspectiva. Infelizmente, por falta de sabedoria minha e de meus irmãos, ganhei alguns conflitos por isso. Ao fim dos 17, início dos 18 eu comecei a faculdade de comunicação, o seminário teológico, e me tornei membro da Igreja Batista Monte Carmelo - na época, a única igreja batista declaradamente de confissão reformada em São Luís. Os anos que passei lá foram marcantes: comecei a transição da música para o púlpito, fui treinado para exercer um papel mais estratégico conforme outras habilidades que Deus estava me concedendo, e continuei o processo de revisão teológica pelo qual estava passando desde o início do ano anterior. Descartes fala de "derrubar o edifício para começar do zero" - eu não cheguei a tanto, mas passei perto. Submeti à dúvida e à revisão teológica muito do que eu havia simplesmente assimilado ou pressuposto como verdade. [Obviamente eu não tenho a pretensão de "certeza"e controle racional como o filósofo]. Foram anos intensos de confirmação de doutrinas, abandono de idéias erradas, e muito aprendizado. Alguns anos depois, por uma série de desdobramentos que teve início com a família, tornei-me membro da Igreja Batista Renascença, onde fiquei por praticamente seis anos (2005 - 2010). Ali também aprendi bastante, especialmente com o contato que tive com vários pastores - Alzugaray Pinheiro, Vanduides Cristovam, Michael Nichols e Carlos Menezes. Concluí o seminário em 2005, mas fiquei lutando com a idéia de ser vocacionado até 2008 ou 2009. Eu não queria ser pastor. Finalmente entendi que Deus havia me chamado para isso, e conversei com os meus líderes. O processo levou uns 2 anos até que fui ordenado na igreja batista. No entanto, ao longo desse período, eu percebia como a teologia reformada faz diferença no ministério. Assim, passei por alegrias e frustrações naquela igreja, mas exercendo o serviço de modo que o processo iniciado lá em 2008 ou 2009 culminou em minha ordenação ao ministério pastoral na igreja batista. Pastoreei durante aquele ano, até que surgiu o convite da Igreja Presbiteriana do Renascença para integrar a equipe ministerial de lá, bem como para plantar uma nova igreja em São Luís. O processo de transição foi tranquilo, e em dezembro eu participava da reunião do Presbitério Leste do Maranhão, para ser avaliado e recebido. A igreja batista me enviou em paz, e a igreja presbiteriana me recebeu muito bem. Sou grato por toda a trajetória.

BJC: Você acha que foi honesto na ocasião, tendo sido ordenado e logo saindo para a IPB?

Allen: Sim. Houve quem interpretasse como desonestidade de minha parte - como era possível uma mudança de convicções tão rápida? Mas esta é uma análise superficial da situação. Como falei, eu estava comprometido com a fé reformada desde 2002 (fim dos 16, início dos 17), e assim partilhava de muitos pontos em comum com os irmãos presbiterianos. Além disso, o seminário que cursei se chamava Instituto Superior de Teologia Reformada. Tratava-se de uma instituição fundada e mantida por pastores presbiterianos - hoje meus colegas de presbitério. A minha perspectiva era a de um batista reformado, pura e simplesmente. Deste modo, eu poderia muito bem caminhar na igreja batista, e pensar de maneira "diferente" do mainstream. A diferença, então, ficava basicamente por conta da forma de governo, e dos sacramentos. No meu exame com os pastores batistas - a "sabatina teológica"- demonstrei que a compreensão presbiteriana do batismo não era algo escandaloso para mim - pelo contrário, eu compreendia a validade do argumento aliancista, e reconhecia que era consistente. Falei tudo isso claramente, e ainda assim fui ordenado pastor batista. Não escondi nada de ninguém, e nem os pastores batistas acharam problemas nisso. A questão do governo era secundária, como ainda penso hoje. Ela tem sua importância em termos administrativos, e precisa representar fidelidade aos elementos bíblicos - a presença de presbíteros e diáconos, ainda que se queira dar outro nome -, mas penso que há liberdade para as denominações terem sua forma de governo. Por isso, eu tinha consciência tranquila de que poderia ser um pastor batista, e que não estava distante dos presbiterianos. Talvez a grande questão seja que, para o observador de fora, é necessário uma grande transformação de mentalidade para alguém deixar de ser batista e se tornar presbiteriano. No meu caso não houve. Creio que Deus trabalhou comigo de modo gradual, desde 2002, de modo que em 2010 - 8 anos depois - os conceitos estavam consolidados e eu poderia mudar sem grandes crises ou rompimentos bruscos.

Os olhos repassam a resposta, e as mãos ansiosas sobre o teclado se prontificam a reescrever qualquer linha. O assunto já causou polêmica, é melhor escrever com cautela.

BJC: Algum arrependimento nesse processo?

Allen: Nenhum. Pelo menos não que eu lembre. Não quero dar a impressão que não cometi erro algum, porque é possível e provável que alguma coisa eu tenha feito de errado. Mas ao mesmo tempo eu creio que Deus conduziu a transição de modo tão perfeito, que eu não consigo imaginar algo que poderia ser melhorado.

BJC: E a recepção na IPB? Como se deu?

Allen: Aqui precisamos analisar de dois modos. No presbitério eu passei por todos os procedimentos adequados, como uma nova sabatina teológica - duas no mesmo ano! - e a pregação. Como muitos dos pastores ali haviam sido meus professores, e outros era meus amigos, fui recebido muito bem. O segundo caso é o da igreja local - a Igreja Presbiteriana do Renascença. Falo em "modos" diferentes porque primeiro fui recebido no presbitério, e depois designado pastor auxiliar da IPR. Mas ali também fui muito bem recebido. A igreja me conhecia pelo menos de rosto, porque desde 2003 eu participava anualmente do Encontro da Fé Reformada - que na época ainda nem tinha esse nome. No último ano fiquei ainda mais próximo, dando palestras e pregando algumas vezes naquela igreja. Os irmãos me receberam muito bem e até hoje me sinto bem acolhido.

BJC: Você consegue notar alguma diferença entre ser pastor na igreja batista e na IPB?

Allen: Não posso falar de modo genérico, porque desconheço a realidade de outras cidades e estados, mas noto grande diferença em termos de liberdade para trabalhar a partir dos pressupostos reformados. Infelizmente, na igreja batista eu fazia um duplo esforço - o de lutar por um lugar para a perspectiva reformada, e então poder ensinar algo dela. Gastava-se mais energia até chegar ao ensino ou ministério propriamente dito. Na IPB a experiência tem sido diferente: por haver um compromisso institucional com a cosmovisão reformada, o ministério tem "fluído" mais tranquilamente. Não quero dar idéias erradas: não demonizo a igreja batista, e nem "romantizo" a presbiteriana: a minha experiência foi desta maneira, mas posso citar o exemplo de igrejas como a Batista da Graça, em São José dos Campos, na qual o ministério brota da abordagem reformada sem problemas. Ao mesmo tempo, sei que é possível um pastor presbiteriano ter dificuldades para exercer o ministério reformado em alguma igreja com maior influência arminiana, pentecostal ou etc. Além disso, cada igreja possui as suas lutas, então sempre há o que trabalhar, e a perfeição é inexistente deste lado do céu. Outra diferença notável é o grau de companheirismo e amizade entre os pastores não apenas da mesma igreja, mas do presbitério. O nosso café reformado - um encontro semanal - ilustra bem o ponto.

BJC: Como você avalia, então, este primeiro ano como pastor presbiteriano?

Allen: Foi um ótimo ano. Creio que ainda estou me adaptando e aprendendo elementos práticos da estrutura conciliar, mas a experiência como um todo tem sido boa demais. Trabalhar com a pregação expositiva da Palavra é desafiador e enriquecedor; acompanhar os jovens e demonstrar as riquezas do evangelho tem sido muito bom; aconselhar pessoas a partir de uma perspectiva voltada para o coração tem produzido bons frutos; conversar com o conselho - Pbs. Eli, Antenor e Fabiano, meu pastor - o Rev. Ilmar -, e os companheiros de ministério - Rev. Cleomárcio, Rev. Adenauer, Rev. Emílio, Rev. Diogo -, tem sido encorajador; e, finalmente, plantar a igreja no Araçagy tem sido uma experiência inigualável.

BJC: O trabalho de plantação está caminhando bem, então?

Allen: No seu ritmo, sim. Não há pretensões megalomaníacas. Queremos apenas que Deus nos envie as pessoas que Ele tem para nós. E enquanto isso seremos fiéis em ensinar a Escritura. Queremos uma experiência real de comunidade, para que haja beleza em nossa confissão e em nossa vida. Este é um trabalho que leva tempo, e nós não temos pressa. Deus está fazendo acontecer, isso nos basta.

recebido na IPB
BJC: Faltou alguma coisa?

Allen: E isso lá é pergunta que um entrevistador faça?

BJC: Quem faz as perguntas aqui sou eu.

Allen: E/ou eu. Mas, respondendo, sim, faltou. Existe uma dimensão do ministério pastoral que talvez não seja tão mencionada quanto necessário, e eu me refiro ao elemento familiar. Junto com o primeiro ano de IPB, eu experimento o primeiro ano como casado. O que poderia ser um desafio foi, na verdade, fonte de graça e oportunidade de crescimento. Encontrei em minha esposa - Ivonete Porto - grande apoio, compreensão e ajuda nessa caminhada. Creio que é preciso sabedoria neste ponto. Alguns dizem que a vocação é do casal, ao que eu respondo: sim e não. A vocação para o ministério pastoral é do homem, exclusivamente. Mas a esposa está envolvida na situação, de modo que foi vocacionada para ser esposa do pastor, e assim abraçar as circunstâncias que decorrem deste chamado. Na parte que lhe cabe, ela vai muito bem, e isso, mais uma vez, traz gratidão e beleza ao nosso relacionamento e serviço.

BJC: Obrigado pelo bate-papo.

Allen: Eu que agradeço.

Assim terminou a conversa. Não mais ele registrando a hipotética entrevista, mas atuando como narrador e revisor, fechando o texto para logo postá-lo no blog.

5 comentários:

brazil worker disse...

Parabéns, meu amigo, por essa marca na tua história. Espero que todos os anos do seu futuro tão promissor, pela graça de Deus, possam ser marcados por tamanho crescimento. Agradeço a Deus pelo privilégio de te ter como irmão em Cristo e colega. Que a nossa satisfação na vida sempre possa ser traçada à mão aberta do nosso Senhor (Sl 145.16). Ele merece!

Ju disse...

Alen,

Ops, reverendo, kkk, difícil chamar vc de pastor, mas enfim. Parabéns pelo dia e gostei da entrevista de si mesmo, haha... Ficou bem curioso. :D
Abraço,

Ju

Allen Porto disse...

Obrigado, grande mestre. O seu nome não está no post à toa. O "Nichols" fez muita diferença nesse processo inteiro!

Ju, muito obrigado também! Deus te abençoe na europa!

abç!

Heitor Alves disse...

Parabéns e que Deus abençoe seu ministério! Que Deus possa te usar para trazer bênçãos à nossa querida IPB!!!!!

Cristhine Gouveia disse...

Parabéns Allen!
Para mim, que estou dando os primeiros passos, foi enriquecedor ler este texto.
Que Deus o abençoe!
Abs, : )