sábado, 29 de novembro de 2008

O discipulado através da amizade

Quando eu era criança (e até hoje) havia um processo específico para o novo convertido, denominado discipulado. A idéia era ter um tempo semanal entre discipulador e discípulo para a iniciação na fé cristã. Lembro-me de minhas lições quando criança - o discipulador visitava a minha casa e ensinava o bê-a-bá doutrinário.

Acredito que em alguns lugares esta abordagem seja útil. Possivelmente, pelo estilo de vida de algumas comunidades, é possível esse tipo de visita e ensino, bem como a utilização daquelas revistinhas comuns sobre o início da jornada cristã.

Ainda assim, considero o contexto de uma capital não tão grande, como São Luís, suficiente para complicar, em alguns momentos, o uso desta abordagem. A distância pode atrapalhar as visitas, a dificuldade de agendas entre discipulador e discípulo pode gerar incômodos, e o formato dos livrinhos de discipulado muitas vezes complica mais do que ajuda.

Como pensar, então, o discipulado em uma nova perspectiva? Respondo: não é preciso pensar em um novo prisma. Basta o velho. Mas o velho mesmo, não o "velho recente", de 30 ou 40 anos atrás. Refiro-me ao modelo apresentado nas Escrituras, utilizado por Jesus, Barnabé e Paulo.

Obviamente os contextos foram diferentes, e assim se percebe variações na forma de aplicação da idéia, mas basicamente os exemplos citados utilizaram a amizade para a prática do discipulado.

Eis alguns pontos favoráveis à aplicação da amizade como instrumento do discipulado:
  • A amizade possibilita verdadeira comunhão, e não apenas encontros superficiais de troca de informação entre tutor e tutelado;
  • A amizade desperta a confiança do discípulo no discipulador, e permite o diálogo franco, a troca de idéias, as perguntas, bem como a prestação de contas e a confissão de pecados;
  • A amizade demonstra a vida do mestre ao seu aprendiz, confirmando a mensagem por ele transmitida (se a vida do discipulador contradisser a sua palavra, transforme-o em um discípulo primeiramente);
  • A amizade também permite ver as fraquezas do discipulador, e demonstrar que ele é humano e gente como o resto dos mortais;
  • A amizade promove situações naturais de crescimento. Os eventos do dia-a-dia serão encarados à luz das Escrituras, e darão o roteiro do estudo. Assim é possível observar a Graça de Deus na vida humana, bem como a atualidade e suficiência das Escrituras;
  • A amizade permite que "sair pra tomar um sorvete," ou "assistir um filme," sejam grandes momentos de ensino (já aproveitei isso algumas vezes) - [só pra ilustrar o ponto anterior];
  • A amizade permite que, mesmo após o "período do discipulado", ou quando o livrinho tiver sido completamente utilizado, o processo de mentoreamento continue. Basta continuar a amizade que a troca de ensinamentos continua. Um programa contínuo e agradável, dentro e fora da igreja, mas sempre com Deus.
Algumas observações, para que eu não seja mal interpretado:

1. Não, não sou absolutamente contra o modelo antigo de discipulado. Apenas prefiro o estilo da amizade, que entendo ser mais bíblico.
2. Sim, tenho minhas reservas quanto a muitos livrinhos de discipulado que são pouco bíblicos e colocam o discípulo diante de doutrinas estranhas. Ainda assim, acredito que os bons livrinhos devem ser usados. Que tal utilizar livros diferentes? Que tal discipular alguém com "O peregrino", de John Bunyan?
3. Não, não sou desses pós-modernos que querem destruir as coisas antigas e estabelecer um modo "fluido" de viver. A mim basta a graça de Deus - isto é mais relaxante que qualquer fluidez das incertezas contemporâneas. Ao mesmo tempo, preciso ser bíblico, e não posso estabelecer um padrão que as Escrituras não estabeleceram. A tradição não está acima da Bíblia.
4. Sim, curto muito a amizade. Por meio dela sou discipulador e discípulo.

Por fim, isto ainda nos convida a repensarmos o conceito de discipulado, convencionado por muitos como algo distinto do evangelismo.
Uma breve mudança de perspectiva permitirá que os nossos amigos não-cristãos sejam, em algum sentido, nossos discípulos, e alvos do nosso evangelismo.

{obviamente não esgotei o assunto. Mas tá tarde e eu tenho provão amanhã cedo. Comentem que a gente troca umas idéias}

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Diário de bordo: Conferência de Artes na Igreja Batista Central de Fortaleza - A honra e o Artista


A IBC de Fortaleza realizou no último fim de semana a Conferência de Artes, com o título "A honra e o artista". Eu e outros três integrantes da equipe de louvor de nossa igreja (Igreja Batista Renascença, em São Luís, Maranhão) fomos lá para aprendermos alguma coisa.

Voltei de lá com ótimas impressões. O palestrante foi Adhemar de Campos, por quem eu confesso conhecer muito pouco até então. Durante as plenárias, fomos "metralhados" com as Escrituras do início ao fim. Fiquei impressionado com o conteúdo bíblico que esse cara possui.

Pois bem, as plenárias foram ótimas. A primeira enfatizou o foco do artista - a glória de Deus, a singularidade de Cristo, a necessidade de um alvo estabelecido, entre outras questões. Esta foi ministrada na sexta à noite. O dia de sábado foi reservado para seminários e um show do Adhemar de Campos - por ocasião do lançamento de seu mais recente cd e dvd. O domingo pela manhã ainda foi palco de duas plenárias, mas só pude assistir a primeira para não perder o vôo de volta para o Maranhão. Dessa vez assisti a palestra do Orlando Neri - o líder do ministério de artes da IBC - sobre o equilíbrio na vida do artista cristão. O texto de Romanos 12 foi bem apresentado, e dá pra perceber tranquilamente a influência do Pr. Armando Bispo sobre os seus liderados.

Participei de dois seminários no sábado: "Simplesmente artista" (sábado de manhã, ministrado pelo Orlando Neri) e "Comunicação" (tarde, com a galera do ministério de comunicação de lá). Dois excelentes seminários, o primeiro enfatizando o coração, e o segundo, a parte técnica.

Por fim, saio dessa experiência com a nítida percepçao de que é possível fazer um bom louvor sem cair nos abismos da superficialidade teológica (ou da heresia). É possível manter um elevado nível técnico com um coração quebrantado e contrito. É possível ser relevante sem aderir às modas do nosso tempo. É possível ser bíblico, e nisto repousa a essência do louvor e da adoração.

Um milhão de fotos do evento estão à disposição no meu álbum virtual. Mas eu suponho que vocês tenham mais o que fazer.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O que devemos ao socialismo?


O que devemos ao socialismo é isto: - a antipessoa, o anti-homem.

Nelson Rodrigues, O reacionário, p.396

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Análises preocupantes

Foto: Daigo Oliva/G1
Saiu no G1: a nota na prova objetiva do Enem caiu 19,1%. Tudo bem, no meio do artigo o cara tenta explicar que não dá pra comparar um ano com o outro. Vá lá, tentemos desconsiderar esta questão. O outro fato preocupante é que, entre as piores notas, está a do meu Maranhão, com média 34,08 nas questões objetivas (contra 45,39 do Distrito Federal, por exemplo).

Como transformar a nossa realidade educacional?

Dia Mundial da Criança


Só descobri isso agora, por meio do blog do Pablo Ramada. De qualquer forma, ainda vale a pena postar!

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Livrim da Semana: Contos Fluminenses, Machado de Assis, 227p.

Já não é a primeira vez que escrevo sobre Machado de Assis, e assim fica fácil entender o tom do meu texto.
Os "Contos Fluminenses" do autor são, sem fugir à regra, excelentes estórias. Assis constrói e descreve personagens com perfis psicológicos interessantíssimos, em tramas mais instigantes ainda. Todos os contos envolvem relacionamentos amorosos e descrevem alguma forma humana de reagir à paixão ou ao amor.
Não é difícil se encontrar em uma personagem ou outra, e fazer auto-críticas a partir de cenas dos contos.
Separei o livrinho como minha leitura de antes de dormir e novamente encarei o problema: era difícil finalmente largar o livro para me dedicar ao sono!!

Leitura recomendada!

O livro pode ser comprado aqui.

O livro está à disposição online aqui.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O crescimento forçado

No tempo das chamadas “bombas” (esteróides) e hormônios de crescimento, existem outras formas de se forjar crescimento. Explico: não quero apresentar nenhuma proposta nova ou técnica para “esticar” o corpo (a minha estatura seria uma terrível contra-propaganda), mas uma possibilidade de crescimento intelectual e espiritual (as duas coisas andam juntas – posso trabalhar isso em outro post).


O insight veio quando eu lia o prólogo do livro História da Filosofia (Julián Marías, Martins Fontes, 589 p.). O autor descreve a sua história nos seguintes termos:


Um grupo de moças estudantes, de dezoito a vinte anos, colegas minhas, amigas muito próximas, me pediram que as ajudasse a se preparar para aquele exame [um exame de história da filosofia mencionado no parágrafo anterior]. Era outubro de 1933; tinha eu dezenove anos e estava no terceiro ano de meus estudos universitários – era o que se chama nos Estados Unidos um “junior” -; mas freqüentara os cursos de meus professores e lera vorazmente não poucos livros de filosofia. Organizou-se um curso privadíssimo, numa das salas de aula da residência de Senhoritas, dirigida por María de Maeztu.

(...)

Aqueles cursos de filosofia eram únicos em muitos sentidos, mas sobretudo em um: meus alunos eram meus colegas de Universidade, minhas amigas, moças da minha idade, o que significa que não tinham nenhum respeito por mim. Essa experiência do que poderíamos chamar de “docência irrespeitosa” foi inestimável para mim. Aquelas garotas não aceitavam nada in verba magistri; o argumento de autoridade não existia para elas. (Marías, pp.XXXI, XXXII)[grifado por mim]


Não sou um “Julián Marías” em nenhum sentido. No entanto, partilhei um pouco desta experiência. Trabalhando com jovens da minha idade, e pessoas mais velhas (não entendam isso pejorativamente, pelo amor de Deus – a palavra “VELHO” não é ruim!), fui e sou forçado a desenvolver senso da realidade, coerência e clareza na apresentação de idéias e força na argumentação a fim de que determinado ponto seja estabelecido.


Ninguém aceita o que falo porque sou eu quem está falando. Não perdoam e disparam perguntas e contra-argumentos violentamente. Batem enquanto podem neste pobre coitado, até que ele consiga apresentar evidências ou argumentos consistentes para fundamentar o que afirma. E, no fim das contas, estão certos em fazer isso.


A proposta é simples: converse com aquelas pessoas que contestarão as suas idéias, ou que, pelo menos, não as aceitarão a priori. Assim você será treinado para ouvir objeções (e ofensas algumas vezes – exercício de paciência...), para ensinar com clareza, e para argumentar com consistência. Tudo isto fortalecerá as suas convicções (e pode – deve – destruir as concepções erradas que você não conseguir sustentar), e dará a você uma compreensão cada vez mais clara dos pontos que defende, especialmente aqueles da sua fé. Em conseqüência disto, com as convicções de fé cada vez mais firmes e claras, você verá o horizonte bíblico-teológico se abrindo, e poderá amar a Deus com toda a sua mente.


Uma observação: é possível que você esteja certo em determinado ponto, mas por não ter fundamentos suficientes para defender o que crê, perca o debate. Não abandone as suas convicções tão facilmente. Estude o assunto, e depois tire as conclusões.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Viagem Missionária - Paulino Neves

Fiz uma rápida viagem com amigos da Igreja para uma cidade na região dos Lençóis Maranhenes, chamada Paulino Neves. Fomos lá por ocasião da organização da Igreja naquela cidade - a partir de agora passa a ser autônoma: a Primeira Igreja Batista em Paulino Neves.

A viagem foi bastante divertida, e as fotos estão à disposição no álbum do picasa (basta clicar na imagem abaixo para dar uma olhada).
Viagem Missionária - Paulino Neves

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Professores Históricos


Há quem goste de História pela descrição dos eventos e pessoas em si. Talvez a curiosidade de perceber pessoas em outros tempos, com outros modos, pensando com categorias diferentes.

Há quem odeie tal disciplina. Nada mais distante e complicado, com todos os seus detalhes, nomes e datas. As descrições de coisas antigas parecem, para tais pessoas, perda de tempo – pois consideram não haver proveito nesta matéria.

Eu não estou em nenhuma das categorias acima. Com isso não quero dizer que fico em uma classe melhor: apenas em uma diferente. Gosto das descrições e eventos, mas se quero simplesmente uma história bem contada, busco Machado de Assis ou Nelson Rodrigues, e está tudo resolvido.

Minha paixão pela História (em especial pela história da Igreja) vem das lições aprendidas na análise das vidas e fatos ao longo dos séculos. Quanto encorajamento tenho encontrado na observação de homens como o rei Davi, Salomão, Jesus (Deus-Homem), o apóstolo Paulo, Atanásio, Agostinho (o teólogo, não o da grande família), Huss, Lutero, Calvino, Whitefield, Jonathan Edwards, David Brainerd, George Muller, etc., etc.

Nas descrições de suas vidas aprendo lições profundamente relevantes para a minha existência. Percebo as suas lutas e vejo que não sou diferente. Observo os seus fracassos e contemplo os meus, ou fico prevenido para não cometer o mesmo erro; analiso a sua vida com Deus e me sinto profundamente humilhado e desafiado a crescer e abandonar a vida infantil que levo.

Nenhum deles me leva à fuga do meu tempo. Pelo contrário: após cada leitura ou descrição biográfica eu me percebo cheio de novas idéias e disposição para encarar os meus dias com a bravura e amor desses caras.

As últimas semanas têm sido especiais neste sentido. Estou ouvindo regularmente as biografias disponíveis no site do ministério Desiring God, do Pr. John Piper. Enquanto dirijo, estou conectado aos homens de Deus nos séculos anteriores, bebendo sedentamente dos seus exemplos, e olhando para o alvo que todos apontavam: o Senhor Deus.

Piper é brilhante em suas descrições, e conecta a realidade das pessoas analisadas com o nosso contexto, extraindo preciosos princípios para os dias atuais. Assim aprendi sobre a persistência de Charles Simeon, a depressão de William Cowper, o amor de David Brainerd, a esperança de Martin Lloyd-Jones.

As emoções despertadas enquanto ouço cada história testificam do meu coração diante de tais análises. É difícil não sentir a tristeza, a dor, a alegria, a firmeza, e o consolo de cada cristão estudado. E no fim de tudo, resta o reconhecimento da grande jornada que ainda resta aos crentes do nosso tempo, se quisermos um pouquinho da relevância e influência de um J. Grescham Machen ou um Charles Spurgeon.

Deus nos ajude.


[Em outras palavras, quer você goste ou não de história, vale a pena dar uma lida ou ouvir uma biografia de vez em quando. Se você lê a Bíblia, já está fazendo isso de alguma forma].


* * *

Os arquivos podem ser baixados gratuitamente em mp3. Estão em inglês.

Para quem deseja algo em português de John Piper, há uma seção no site para materiais em nossa língua.

domingo, 9 de novembro de 2008

Livrim da Semana: Fundamentos da Teologia Reformada, Hermisten Maia, 203 p.

Novamente o Dr. Hermisten Maia demonstra a sua competência em uma obra de fácil leitura e muita instrução. Como uma Teologia Sistemática resumida, a obra apresenta alguns pontos fundamentais do pensamento cristão a partir do prisma Reformado.
Aqueles que desejam melhor conhecimento doutrinário, com várias referências a outros autores e a textos bíblicos que fundamentam a exposição, devem saudar este material como de grande auxílio.
Quem deseja uma introdução ao pensamento de Calvino também encontra nesta obra tal indicador. O Dr. Hermisten interagiu com os escritos do reformador de tal maneira que o leitor, ao terminar a leitura, sente-se bem mais familiarizado com o pensamento do teólogo/pastor de Genebra.
O equílibrio entre intelectualidade e devoção, reflexão e piedade também é marca positiva do livro.
Como é um sumário do pensamento reformado, a obra não apresenta as divergências de pensadores dentro da corrente calvinista - isto deve ser buscado em outras obras.

Recomendo a leitura tanto para calvinistas, quanto para aqueles que desejam conhecer a abrangência do pensamento reformado - que não se resume à doutrina da predestinação, como querem alguns.

Algumas citações da obra:

"[A Teologia] não é gerada pelo esforço de nossa observação de Deus, mas é o resultado da revelação soberana e pessoal de Deus". (p.9)

"A base da vida cristã autêntica é a sólida doutrina vivenciada". (p.21)

"A teologia reformada reconhece a Bíblia como a causa eficiente e instrumental da teologia, sendo Deus, a causa final. (...) [a teologia] é sempre o efeito da ação reveladora, inspiradora e iluminadora de Deus através do Espírito". (pp.30, 31)

"A ciência genuína nunca nos afastará de Deus". (p.49)

"Qualquer juízo a respeito de Cristo que, em primeiro lugar, não reconheça o fato de Ele ser Deus encarnado é, na realidade, uma diminuição do Seu ser, uma ofensa, uma blasfêmia, não um 'elogio'". (p.59)

"Os homens estão dispostos a reconhecer espontaneamente diversas virtudes em Deus, como amor, graça, perdão, provisão etc. Soberania, jamais". (p.78)

"Todas as vezes que tratamos do Espírito [Santo] alheados do seu próprio desejo, nos esquecemos do Espírito". (p.91)

"A visão correta a respeito da Igreja passa, necessariamente, pela correta compreensão de quem é o Cristo, o Filho de Deus". (p.111)

"Oração eficaz é a que tem o Espírito como autor". (p.119)

"O sentimento religioso, sem o direcionamento do Espírito Santo através das Escrituras, torna a religião mera antropologia". (p.129)

"Os recursos de que dispomos devem ser um estímulo a sermos agradecidos a Deus por Sua generosa bondade". (p.160)

"A Igreja é filha da eternidade, não do tempo". (p.170)

"A teologia reformada, com sua ênfase na centralidade das Escrituras, é mais do que um sistema teológico; é, sobretudo, uma maneira teocêntrica de ver, interpretar e atuar na história". (p.198)

"Ser reformado não é apenas uma condição nominal vazio (sic) de sentido, antes reflete a fé em atos de formação e transformação". (p.198)

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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Uma nota de esperança

Eu não poderia fechar os comentários sobre a "ignorância jovem cristã" a respeito de sua história, sem indicar pontos positivos e caminhos para a transformação. Volto ao evento do sábado.
Ninguém soube me dizer o nome de cinco reformadores. Tragédia imensa. Mas outros brindes seriam oferecidos - agora eram livros - e novas perguntas viriam. Mais ainda, não acertaram os cinco, mas acertaram três. Uma jovem respondeu quando diminuí o número de reformadores e ganhou a camisa.
Joguei a segunda pergunta ao auditório como quem bate um tiro de meta: "Alguém sabe mencionar os 'cinco solas' ou 'cinco somente(s)' da Reforma?". Nem tinha terminado a pergunta quando um jovem levantou a mão e começou a responder, rápido como quem corre de uma briga: "Sola Fide, Sola Gratia, Sola Scriptura, Solus Christus e Soli Deo Gloria!". O cara respondeu em latim. Abri o sorriso mais "reformado" que possuo e entreguei o livro, muito satisfeito.
Emendei a última pergunta - o relógio me olhava com uma agressividade terrível - sobre a freira que se tornou esposa de Lutero. Várias pessoas gritaram o seu primeiro nome, mas foi uma garota (as mulheres, novamente) no fim do auditório quem disse a identificação completa. Levou o último livro.
No meio da amnésia degenerativa, alguns focos de resistência se levantam. Enquanto as jovens massas são levadas pela "cultura gospel" ou mesmo por outras culturas anti-cristãs (lembro-me agora das trocentas pessoas que ousam defender o namoro entre cristãos e incrédulos com a seriedade de um teólogo), existem jovens que sabem afirmar os cinco solas em latim, e sabem apresentar o seu significado em bom português.
Mais do que isso: no contexto da apatia jovem (perdoem a repetitividade desta palavra no texto, mas sinto que preciso bater tantas vezes quanto puder neste termo - até que ele quebre e possa ser encontrado algum fragmento de significado real), existem pessoas realmente comprometidas com Deus, Sua Palavra e Sua Igreja.
Enquanto me envergonho das massas, não canso de admirar indivíduos que lêem a Bíblia sedentamente, oram com fidelidade, perguntam e discutem a realidade a partir da cosmovisão cristã, e carregam as marcas dos verdadeiros discípulos de Cristo.
Enquanto denuncio os cristãos nominais que nem sabem o que é a justificação pela fé (como alguém pode se dizer cristão sem conhecer o conteúdo da justificação pela fé? - eu disse o conteúdo, e não a expressão...), encorajo os meus irmãos e irmãs que são chamados de fundamentalistas pelas posturas sérias que possuem. Admiro, elogio, e reconheço os caras rejeitados pelos grupinhos populares por guardarem a sua fé e não negociarem os princípios das Escrituras.
No meio da multidão confusa existem, se não 7.000, pelo menos uns 70 joelhos não dobrados diante da apatia. Para a glória de Deus.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

5 Reformadores

Lá estava eu diante daqueles jovens. Nelson Rodrigues dizia que o jovem não tem nada melhor do que ninguém, e ainda tem o defeito da imaturidade. Eu concordo. Mas volto à minha história. Perguntava eu se alguém poderia me dizer o nome de cinco reformadores - aquele pessoal que coordenou a Reforma Protestante.
Cinco é um número relativamente pequeno. A Europa é grande, e a Reforma teve dimensões colossais. Além disso, a resposta valia um prêmio. As pessoas ficam loucas por prêmios. Vi pessoas brigando para conseguirem um brinde.
Eis a situação: eu diante daquele povo, pedindo o nome de cinco agentes da Reforma, com um presente na mão para quem acertasse. Que resposta eu tive? Um enorme silêncio, daqueles que preenchem o ambiente com a sua gravidade. Subitamente a imagem da neblina na estrada me veio à mente. E lá estávamos: eu aguardando a resposta, os jovens calados, e o auditório sendo preenchido pela densa e negra neblina do silêncio.
Ninguém sabe mais o nome dos instrumentos de Deus no movimento do Século XVI. Saber o nome de alguém na cultura hebraica indicava conhecer o caráter da pessoa. Nessa perspectiva a situação fica pior ainda, e eu reformulo a sentença: ninguém sabe mais o nome, o caráter, as realizações, os ensinamentos, ou qualquer outro detalhe sobre a Reforma Protestante.
Todos cegos pela neblina que preenchia o local, e confusos em sua amnésia, só podiam aguardar algum movimento externo que os livrasse daquela situação. Acho até que ouvi alguém dizer: "poxa, eu queria saber pra ganhar a camisa" (o prêmio era uma camisa - esqueci de dizer). Ou por outra: não ouvi ninguém dizer isso, apenas queria ter ouvido.
Então eu cheguei à triste constatação: nem mesmo um brinde faz um jovem cristão acertar algo sobre a Reforma, ou, abrindo o leque, sobre a história da Igreja.
Somos a geração mais presunçosa de todos os tempos. Queremos cantar a nossa glória em quase todas as canções (já cansei de ouvir que esta é a geração que marca, que faz isso, que faz aquilo, etc., etc.), mas não sabemos nada de nada.
Uma geração sem história é uma geração sem identidade. Uma geração sem identidade é um povo sem rumo. Um povo sem rumo não marca nada nem ninguém, pelo contrário, perde-se na primeira bifurcação do caminho.

A coceira

Fernando tinha o péssimo hábito de se coçar. Na verdade era mais do que um hábito – uma manifestação concreta de suas angústias e intranqüilidades.
Vejam, a questão não gira em torno de um banho menos demorado ou de insuficientes esfregadas. Cada variação emocional era traduzida fisicamente em uma coceira.

Talvez ele sentisse que eliminava o desconforto esfregando alguma parte do corpo – ora a testa, ora o pescoço, o tórax, as orelhas, o antebraço, etc., etc. Talvez fosse uma expressão impensada e quase inconsciente, que se repetia religiosamente a cada agonia sentida.

Por vezes o simples calor era a razão da coceira. Mais comum ainda era a agonia proveniente da discordância intelectual: ao ouvir uma idéia estranha ou inconsistente (à sua percepção) a história se repetia – a barba, a nuca e as costas se tornavam o objeto da violência de Fernando. Antes mesmo de responder ou contra-argumentar era estampado o gesto (às vezes nem respondia, contentava-se com a expressão física).

Este é o ponto que me esqueci de mencionar: as coçadas eram feitas com a agressividade de quem decide preparar um terreno para a colheita. Tanta força era utilizada nestes momentos, que o corpo do indivíduo sofria. Vejam a dualidade da coisa: por um lado um prazer momentâneo era obtido por meio da coceira (seja por simplesmente extravasar, ou por sentir que estava se livrando de algum incômodo real); por outro, cada momento de satisfação era seguido de feridas que se abriam pelos locais violentados.

Foi numa dessas lutas corporais contra si que ele percebeu ser esta uma metáfora da vida humana. Não poucas vezes ele tentou resolver questões existenciais com métodos “instantâneos” de satisfação. O resultado era óbvio: um leve prazer momentâneo, seguido de uma ferida aberta.

Aparentemente ele teve a descoberta de sua vida: Os problemas reais exigem soluções reais, de outra forma, eles criarão novas dificuldades. Ainda assim, a percepção desta verdade o incomodou tão profundamente que, alguns minutos depois, ele acordou da viagem mental e percebeu as gotas vermelhas no chão do quarto – havia se coçado e se machucado mais uma vez. O sangue era testemunha de sua teimosia.

Há esperança para um Fernando desligado?

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Livrim do Domingo: Jesus virá em breve?, Gary DeMar, 66p.

Um livro interessantíssimo. Com uma abordagem introdutória à perspectiva preterista e pós-milenista, DeMar questiona interpretações realizadas sobre o sermão escatológico de Jesus, enquanto apresenta a sua visão da coisa.
Os argumentos e análises textuais são, no mínimo, muito interessantes e desafiadores para quem estava acostumado com uma noção diferente.
A análise de Mt. 24 é clara e instrutiva em muitos aspectos, mesmo para quem não concorda com todos os pontos do autor. Sua interação com o contexto, a história e o grego, dão à descrição um caráter preciso, mesmo na brevidade da obra.

Leitura recomendada.

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Livrim do Sábado: A infelicidade do Século, Alain Besançon, 144p.

Alain Besançon compara nazismo e comunismo, demonstrando suas peculiaridades e pontos de contato.
O autor demonstra as destruições realizadas por estas expressões totalitárias no âmbito físico, moral e político, além de fazer uma análise de pontos teológicos a partir destes sistemas.
Uma das teses fundamentais da obra é a de que há um problema com a nossa memória. Demonizamos o nazismo, mas nos esquecemos do comunismo.
Besançon demonstra as atrocidades do socialismo, e convoca e restaurarmos a memória deste movimento perigoso para sermos libertos de futuras manifestações do tipo.

Leitura recomendada!

Leia outra análise da obra.

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