Aqui vai um pouco de vermelho e azul, no estilo Reinaldo Azevedo. Recebi esse comentário ao post "A espancadora de cientistas cristãos". Guardei um pouco até poder escrever alguma coisa, ainda que básica, e aí vai.
Este comentário também me dá a oportunidade de inaugurar uma seção mais apologética no blog, que chamarei de Recortes Apologéticos.
Volto no fim do diálogo.
sr. Allen Porto. Gostaria, antes de mais nada, de me desculpar pela aparente violência gratuita em meu comentário: eu sou uma pessoa muito pacífica, e jamais teria coragem (nem força, pra ser honesta) pra bater em alguém, muito embora meu senso inconseqüente de humor me permita afirmar isso. É claro que o Sr. não é obrigado a adivinhar o quão sério é cada comentário, por isso venho me retratar.
Olá Romilde, já postei uma breve resposta no seu blog agradecendo a gentileza e também pedindo perdão pelo abuso no que diz respeito a lhe chamar indiretamente de palhaça (algo que você comenta no parágrafo seguinte).
Ainda, preciso esclarecer, pois aparentemente o Sr não compreendeu isso, apesar de sua notável capacidade de fazer trocadilhos, que Junquera, R., não é uma maneira de camuflar minha identidade, e sim uma alusão à minha profissão, em que se assina com o sobrenome, e apenas a inicial do primeiro nome. A figura de palhaça, por sua vez, é uma alusão aos elementos mágicos e poéticos circenses, logo, eu não compreendi a conotação pejorativa que o Sr. deu ao seu comentário ao mencionar a referida imagem.
Sobre a notável capacidade de fazer trocadilhos, não entendi – talvez seja algo relacionado ao uso da figura da palhaça (mas acho que não, por que você comenta sobre isso nas linhas seguintes).
Sr. Allen, se me permite, compartilharei com o Sr. algo de minha vivência. Para mim, deus e a ciência são domínios diferentes, a ciência não deve tentar explicar algo que apenas se sente, que é deus.
O que você entende por “domínios”?
Significa que a ciência está completamente desvinculada da religião, e vice-versa?
Como você chegou a esta conclusão?
Como você sabe que Deus é apenas sentido?
O problema reside no fato de os homens terem inventado a religião. Sim, porque o Sr, letrado como é, já deve ter atentado para o fato de que só é cristão porque nasceu em tempo e lugar cristãos, e que se tivesse nascido em outro lugar e em outro tempo, podia ser seguidor de Mithra, Baal, Jah, Thor, Zeus, Alá, Wotan, e só Deus sabe quem mais.
Deixe-me ver se entendi: você está afirmando que o homem é produto do seu contexto?
Só sou cristão porque nasci em um lugar e tempo cristãos? Como você pode demonstrar que a relação espacial e temporal determinam a fé de alguém? Através de que raciocínio você chegou a esta afirmação?
É interessante notar que aqui você não somente escrever “Deus” com “D” maiúsculo (diferente de todo o texto), mas também revelou, brincando ou não, a onisciência de Deus – só Ele sabe de todas as coisas.
Isso porque, Sr. Allen, na minha humilde e particular concepção, a única verdade em todas as religiões é a fé. O resto é história. A fé é real, os livros que os homens escreveram, os cultos que eles inventaram, tudo é fruto de sua criatividade.
A única verdade em todas as religiões é a fé? Como você pode demonstrar isso?
Permita-me demonstrar rapidamente por que isso é falso. A fé não é um conteúdo em si, mas o direcionamento das disposições intelectuais e emocionais para algum conteúdo (externo). Assim, a fé em si mesma não pode ser definida como verdade, mas apenas aquilo para o qual ela está direcionada é verdadeiro ou falso.
Não faz nenhum sentido você dizer que “a fé é a única verdade em todas as religiões”.
Ou o Sr. me diria que o nome que o Sr dá ao seu deus, e a forma como o cultua são corretos, e todos os outros povos estão errados?
O próprio Deus revelou o Seu nome. E sim, acredito que o Cristianismo é correto e todas as outras cosmovisões e religiões são falsas e, portanto, estão erradas.
Eu não acredito na bíblia como livro sagrado, mas a respeito muito como documento histórico e principalmente como obra literária: a forma como Deus fez o homem do barro (terra + água + fogo) e deu-lhe a vida acrescentando o quarto elemento (ar) num sopro, é deveras linda.
Você está afirmando que a Bíblia tem validade histórica, mas não religiosa? Como você diferencia o que é história e o que é religião na Bíblia?
Mas tem muitas coisas sobre a bíblia que não me permitem aceitar sua seriedade. A forma como a igreja simplesmente omitiu alguns livros da bíblia segundo lhes era conveniente, manipulando a história de Jesus, por exemplo.
Obviamente você não conhece os critérios pelos quais os livros foram selecionados, e prefere acreditar que foi pura manipulação.
Critérios como a autoria ou supervisão de um apóstolo nem passam pela sua cabeça. Pontos como a coerência com o ensino do Antigo Testamento também são descartados.
Você supõe que todos os livros escritos sobre Jesus na época deveriam estar na Bíblia. Por quê? De que linha você deduziu que: (1) todos os livros escritos sobre Jesus devem ser verdadeiros e, portanto deveriam estar na Bíblia, e (2) os livros que não estão na Bíblia foram excluídos por conveniência?
O Sr sabia que o livro de Isaías provavelmente foi escrito por três (ou mais) autores diferentes, em tempos bem distantes? E eu ainda poderia citar dezenas de incoerências bíblicas, mas definitivamente, não tenho nenhum interesse em que o Sr. acredite no que acredito, o que quero esclarecer, Sr Allen, está além, muito além daquilo em que eu acredito ou não, e também muito além daquilo em que o Sr. acredita ou não. O que quero esclarecer não se sustenta pela minha, nem pela sua fé, mas sim em fatos.
O que você tem me apresentado até então é a sua fé. As questões sobre o livro de Isaías já foram respondidas há bastante tempo. Leia ou ouça as pesquisas do Pr. Armando Bispo sobre o assunto (ao comentar sobre o Código Da Vinci ele apresenta um material bem fundamentado).
Você se esquece que interpreta os fatos conforme a sua visão de mundo. A sua cosmovisão determina a maneira como você analisará os fenômenos, então não adianta falar que “está simplesmente baseada em fatos”. No fim das contas, os seus pressupostos mais básicos (axiomas) são recebidos por você com base na... fé.
Quando afirmo que o Sr. Adauto Lourenço é charlatão, sensacionalista e manipulador, baseio-me em fatos. O Sr. Adauto utiliza-se de argumentos científicos descontextualizados para derrubar uma teoria científica perfeitamente plausível, e corroborar o criacionismo, uma teoria embasada em fonte, a meu ver, não muito confiável: a bíblia.
O que você considera uma fonte confiável?
Como chegou a esta dedução?
O primeiro absurdo proferido pelo Sr. Adauto foi o de que a terra teria entre 10 e 13 mil anos, acho que nem preciso contestar isso, pois seria subestimar a sua inteligência.
Fique à vontade para contestar.
Como você sabe que a Terra não tem 10 mil anos, por exemplo?
Quero, principalmente, demonstrar as falhas formais do seu pensamento, mas, tocando em aspectos materiais, você já viu como os métodos de datação são complicados? Eles mesmos não partem de algum pressuposto?
Ele ainda define conceitos, tais como evolução, macro e micro evolução, de maneira distorcida, irresponsável e conveniente. Conveniente para ele e para o criacionismo, obviamente, e não para o que parecia um objetivo nobilíssimo, que foi o que me levou a ler seu post e assistir ao vídeo: Conhecer argumentos imparciais das duas vertentes.
O que você chama de argumentos imparciais?
Os darwinistas não estão defendendo a sua visão?
Por que um cristão não poderia refutar um darwinista e apresentar os seus argumentos?
A teoria da evolução, prezado, jamais se propôs a explicar a origem da vida, o que ela explica com parcimônia, por sinal, é a diversidade de formas de vida que temos hoje. Ainda, organismos não evoluem, individualmente, e é a seleção natural, e não a evolução, que permite apenas aos mais hábeis sobreviverem. Eu também gostaria de dizer que, segundo um artigo publicado no periódico científico Science (esse sim, indubitavelmente confiável e criterioso), o animal que tem mais aminoácidos no citocromo c em comum com o homem, é o chimpanzé, animal esse, que possui, segundo os estudos mais recentes, mais de 97% de seu DNA em comum com o DNA humano - mais uma evidência de que nós, hominídeos, e os macacos, pongídeos, derivamos de um mesmo ancestral.
Como você chegou à conclusão que, porque temos alguma semelhança com o chimpanzé, esta é uma evidência de que temos o mesmo ancestral?
Se tivermos semelhanças com outras coisas devemos pensar que temos origens semelhantes?
Eu ainda poderia citar outras inverdades e gafes que o Sr Adauto cometeu, e refutá-las oferecendo as referências bibliográficas cabíveis, sem medo de estar sendo leviana, posto que a publicação científica, como o Sr. deve saber, é experimentada, testada e muito bem embasada em dados e resultados reais, mas penso que os supracitados já são suficientes.
A parte sublinhada demonstra a sua fé na ciência. Como ela é embasada em dados “reais”, então é confiável.
O que é “real”?
Como você demonstra que a religião não se baseia em dados reais?
Um dos preceitos da filosofia da ciência é o de que nunca se atinge a verdade, posto que ela é relativa. O conhecimento está sendo sempre acrescido. Há muitas lacunas na ciência, sim. Parte do conhecimento transmitido nas escolas, realmente não pode ser admitido como a verdade pronta. Entretanto, podemos propor teorias como a do surgimento da vida, que é muito plausível, e aceitá-las em função de centenas de estudos, experimentos, dados, análises, simulações e etc. que as corroboram e evidenciam.
Aqui você se contradiz, em relação ao final do parágrafo anterior.
Como você afirma (como verdade) que a verdade é relativa? Como você quer que eu encare essa sua afirmação? Como verdade?
Como a experimentação e as sensações deixam de ser isso e passam a ser conhecimento?
Eu não vou lhe perguntar como ou quando seu deus surgiu, ou como ele agiu, Sr. Allen, pois não cabe ao domínio da ciência questionar o que é referente ao domínio da fé. Penso que também não cabe a nenhuma religião tentar responder com magia e milagres o processo físico, químico, contínuo, lento, real e natural que foi e é o surgimento da vida, bem como sua transformação.
A ciência tem buscado falar sobre origens, moralidade, e (vejam só), religião!
Como você define qual o campo da ciência e qual o da fé?
Sem mais para o momento, e atenciosamente, Junquera, R.
Obrigado pela oportunidade de dialogar sobre essas questões. Aguardo as suas respostas.
Se você deseja saber mais sobre apologética, visite o site do Vincent Cheung,
em português e
em inglês.
Se deseja conhecer mais sobre religião e ciência, visite o
site e o
blog do
Guilherme de Carvalho, o site da
AKET, bem como o
novo espaço da Ultimado sobre a questão.