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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O melhor de 2011 em música

Eis algo novo. Nunca havia listado os melhores do ano na categoria música. Talvez pela dificuldade em selecionar algo. Em 2011 aprendi um pouco mais da riqueza dos clássicos como Handel e Bach, mas como não os desfrutei suficientemente, ficarão fora da lista [embora estejam em uma lista eterna].

O que vai abaixo é uma tímida seleção, não do que foi lançado neste ano, mas do que descobri e curti, ou do que revisitei e percebi riqueza, enfim, expressões de beleza que alimentaram de algum modo minha alma. Selecionei apenas 12 para ficar algo proporcional aos meses do ano, e para que a lista tivesse fim (eu continuo lembrando de nomes). Mas agora já foi. O que está por aí fica. Os outros podem ser comentados em outras ocasiões.

Aproveitem.

1. Ebinho Cardoso
O melhor baixista que conheço. Sua música é rica de sentimento e me leva às lágrimas. Ebinho eleva o baixo a outros níveis, explorando o instrumento em suas diversas potencialidades, e trabalhando nele a harmonia de modo mais pleno. A música Ruanda está entre minhas preferidas.

2. Andy McKee
O que falei de Ebinho no baixo pode ser dito de Andy McKee no violão. Conheci-o através de "Rylynn", que me derrubou fácil. A sonoridade que tira do violão é singular. Cada nota vem com mais significado e sentimento.



3. Andrew Peterson
Não lembro como conheci Andrew Peterson, mas com certeza foi um dos melhores sons de 2011. O seu estilo meio folk/country me soa muito suave e belo. Mas não apenas isso: Peterson é um músico, compositor e escritor profundamente influenciado por C. S. Lewis. Desse modo, consegue transpor para suas canções a beleza de letras que acompanham linhas melódicas envolventes. O CD "The Far Country" é um trabalho conceitual sobre o céu - belíssimo!

4.  Palavrantiga
Palavrantiga me lembra da consistência de Peterson. Pensam, compõem e cantam sob a influência kuyperiana/rookmakeriana e fazem um "hope rock" agradável e significativo. É uma das bandas que me dão esperança no meio cristão. "Rookmaaker" é um  dos hits que talvez você já conheça!

5. Sovereign Grace Music
Eis o que todo grupo de louvor deveria ouvir e aprender. SGM é a equilibrada junção de música envolvente, bela, verdadeira, e cautelosa em sua teologia. A equipe de louvor canta salmos, orações puritanas, e temas teológicos com criatividade e excelência, com um som bastante autêntico - sem cair nas fórmulas dos grupos de louvor de sucesso. Recomendo o CD "Risen".



6. Sojourn
Descobri o Sojourn logo após o Sovereign Grace, por indicação de meu primo. Seguem um princípio em comum - boa teologia e criatividade. Sojourn soa mais como banda, sem foco em músicas congregacionais, mas o modo como envolve os elementos eletrônicos em suas canções é algo impressionante. Vale a pena conhecer! A música "How Long", do álbum "Over the grave" é demais!

7.  John Mayer
John Mayer me trouxe alegria musical logo no início do ano. Eu buscava algo interessante, e o seu DVD "Where the light is" apareceu na hora certa. Sua levada como instrumentista é boa demais, e ele transita muito bem entre o pop e o blues.

8. Johnny Lang
Junto com Mayer, Lang me fez reencontrar a beleza do blues. "Lie to me" deixou as melhores impressões sobre este cantor/instrumentista. Sua voz "rasgada" encaixa perfeitamente no som.

9. Wanda Sá
Não conhecia esta cantora cristã que faz um maravilhoso som. Com a suavidade da bossa, e uma grande voz, ela passeia entre canções com propriedade e sutileza. Sua releitura de "Ame ao Senhor" me derrubou.



 10. Tanlan
Tive a oportunidade de conhecer os caras do Tanlan aqui em SanLu. Seu som é agradável, e sua visão cristã é consistente. Fogem dos clichês, e isso me agrada bastante. Foram mencionados como produto dessa "nova safra" de música cristã, que, com Palavrantiga, Eduardo Mano, etc., traz um som mais apurado, e um conteúdo mais pensante.

11. Thalles
Thalles é um pentecostal ou neo, que tem uma bela voz. Discordo de elementos de sua teologia, mas ao ouvir suas canções não posso deixar de apreciar a sonoridade. Seu cd "Na casa do Pai" é muito bem produzido.

12. Dr. Sin
Voltei a ouvir Dr. Sin recentemente. Não se assustem com o nome. A banda conta com o famoso guitarrista Eduardo Ardanuy, e no seu som pesado traz harmonia e boas levadas de baixo e guitarra. "Sometimes" é demais.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Beleza, unidade e sentido


Em 1979, Francis Schaeffer e Colin Duriez trocaram correspondências a respeito da doença do fundador de L'Abri. Em 1984 ele faleceria, como resultado do câncer. Mas na carta escrita por Schaeffer naquele período havia uma belíssima declaração:

Como é bom ter uma teologia na qual não há tensão entre usar a melhor medicina possível e olhar diretamente para o Senhor, buscando a resposta das orações. (Duriez, Francis Schaeffer: an authentic life, p.196 - kindle edition)

Isso poderia abrir uma interessante discussão sobre medicina, fé e oração, mas pretendo apontar a direção que, eu creio, Schaeffer pretendia enfatizar. No pensamento cristão consistente, não há dicotomias ou uma separação entre o campo da "graça" e o da "natureza" - uma distinção entre as coisas comuns da vida e as coisas "espirituais".

Os desdobramentos deste ponto são imensos. Schaeffer demonstrou como ele poderia buscar o melhor da medicina e se voltar a Deus em oração simultaneamente, sem crise de que um "devorasse" o outro, por não haver contradição. Do mesmo modo um cristão pode pedir a Deus pela provisão, e trabalhar duramente, compreendendo a unidade entre as duas coisas. Alguém pode (e deve!) ler a Bíblia sem considerar este um momento distante do resto da vida; pelo contrário, como o salmista, toda a experiência da vida no dia a dia passa a ser um exercício de interpretação e aplicação bíblica.

Luiz Rosa no palco. O centro histórico em flor.
Há, no entanto, ainda um ponto específico que eu gostaria de ressaltar. Refiro-me ao grau de enriquecimento da vida em termos de significado e beleza quando esta unidade é percebida e experimentada. Quero ilustrar com a minha experiência da última semana.

Foi realizado em São Luís o 3º festival internacional de contrabaixo, com grandes nomes do instrumento, como o maranhense Mauro Sérgio, o divulgador da coisa no Brasil inteiro - Celso Pixinga, e os norte-americanos Jim e Grant Stinnett (Jim é professor da Berklee - conceituada faculdade de música em Boston), Todd Johnson, e Shane Alessio, além do baterista e jazzista Dom Moio.

Se você parte de uma visão fragmentada da realidade, o festival poderia despertar algumas posturas:

1. Não é algo "espiritual", portanto não irei
2. Não é algo "espiritual", mas é algo "comum", então irei e aproveitarei como algo separado do reino da graça
3. É "espiritual"! Deus está ali falando e se revelando a partir da cultura - o abalo existencial provocado pela música é a Revelação de Deus

As duas primeiras colocam o show no reino da 'natureza', com respostas diferentes. Por ser algo "comum" (não-espiritual), a primeira resposta considera algo desprezível, ou age com indiferença. Há muitos que vivem de modo empobrecido, por não desenvolverem interesse pela criação de Deus em sua variedade. A beleza das artes, a criatividade humana, as profissões e vocações, são todas diminuídas em sua importância pela preferência das coisas "espirituais" - talvez oração e leitura da Bíblia. O cristão nessa perspectiva tem pouca liberdade de vida. É escravo da "vida espiritual", e assim vive sem prazer durante toda a semana, até que chegue o domingo, ou então cria atividades eclesiásticas todos os dias para justificar a sua existência. Essas são as pessoas conhecidas como fanáticos, ou limitados em suas conversas (monotemáticas). Pessoas que, mesmo valorizando as disciplinas espirituais, definiram o escopo de aplicação das Escrituras e limitaram a experiência de adoração na vida. No esforço de tanto glorificar ao Senhor, o fazem menos do que deveriam.

A segunda resposta tenta encontrar o prazer através do "salto". O festival de baixo continua sendo não-espiritual, mas será desfrutado dentro do seu campo secular. Afinal, as coisas de Deus são aproveitadas aos domingos, e as coisas seculares regulam o resto da vida. Esse tipo de cristão pode ser mais versado e articulado no resto das expressões culturais; pode valorizar as artes e as profissões; pode ter a ciência e a filosofia em grande estima, mas tudo às custas da exclusão da Palavra de Deus. Ele busca o valor de cada elemento separado de Deus, e assim também empobrece a sua experiência de vida. Tem um universo de particulares desconectados e sem sentido último. O festival de baixo não tem propósito último e não está ligado ao todo da vida, é apenas mais uma oportunidade solta de satisfação.

O terceiro a responder se aproxima de uma perspectiva Tillichiana (de Paul Tillich e sua teologia da cultura). Ele ainda pensa de modo fragmentado, mas agora eleva a arte ao patamar de cima - o reino do sagrado, ou da graça. Na medida em que as artes o tocam profundamente, e que o seu espírito é alimentado pela beleza dos sons e cores, ele atribui a isto o mesmo peso da Revelação Divina, considerando tal "abalo existencial" como Palavra de Deus. O resultado disso é uma grande abertura cultural, mas a perda da autoridade bíblica, que foi nivelada a qualquer experiência significante. A voz de Deus nas Escrituras é abafada e perdida em meio à adoração das artes e expressões culturais. O cristão passa a ser alguém confuso, direcionado pela estética e sem conteúdos reais de fé.

Jim Stinnett, Shane Alessio, Dom Moio e Todd Johnson
Contra tudo isso está a perspectiva integrada do cristianismo consistente. Um show é um show: Embora haja abalos existenciais e a beleza de tudo aquilo seja tocante, não é a Palavra de Deus. Mas não é por que há distinção entre a beleza do evento e a Revelação, que o festival não tem valor. Pelo contrário, em uma visão unificada da vida, o show tem verdadeiro valor e significado, porque as artes e expressões culturais são instrumentos da graça comum, e apontam para uma beleza e riqueza eternas, encontradas unicamente em Deus.

Eu experimentei um pouco disso. Pude ouvir um grande som, e alimentar não apenas os ouvidos, mas os olhos com a paisagem do centro histórico de São Luís, em uma experiência de beleza tocante. A presença de amigos e de minha esposa tornaram a coisa ainda mais prazerosa e significante, e lá eu via e sentia gratidão a Deus: a vida em sua plenitude é experimentada quando Jesus é o ponto de referência e unificação. Tudo fazia sentido.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Quiet Nights - Diana Krall

Estou ouvindo o cd Quiet Nights, de Diana Krall, por estes dias.

O álbum, lançado em Março deste ano, está recheado de Brasil. Explico: a influência da Bossa Nova se faz presente em cada música da jazzista.

Visito o site da cantora, e descubro que a impressão (e intenção) dela com o cd é criar um clima de "romance natural" - que não dependa de luz de velas ou caminhadas na praia. A figura de intimidade é pintada por ela como "alguém sussurrando a(o) amad@ na cama" - uma figura, por certo, de um romance que não depende de plástica.

Os arranjos são assinados por Claus Ogerman, que já trabalhou com Tom Jobim, João Gilberto, Frank Sinatra, Stan Getz, etc.

São três clássicos da Bossa Nova regravados pela jazzista, com o famoso "Corcovado" de Tom Jobim (em inglês - Quiet Nights). Para a minha surpresa, ela canta "Este seu olhar" em português - é uma experiência interessante ouvir. Ela grava, ainda, "The boy from Ipanema" - uma adaptação de "Garota de Ipanema".

O interessante na descrição de Krall (e do seu site), é que, embora a sensualidade do álbum seja constantemente ressaltada, a cantora dedica tudo isto ao seu marido (e, de modo mais amplo, à sua família).

Boa música, com boa mentalidade fazendo os backing vocals =)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

LIBERDADE OU AUTONOMIA? ... [9 - e final]

REFERÊNCIAS

BAKER, Diane-Peter. Transcendental Arguments, The Truman Show and Original Sin. Journal of Theology for Southern Africa. South Africa, 113, jul 2002. p. 97-108.

DOOYEWEERD, Herman. A New Critique of Theoretical Thought, Vol I. Ontario: Paideia Press, 1984.

FELDMAN, Ilana. Vejo, logo duvido: do mundo como ficção enganadora à dúvida como método. In: GARCIA, Gabriel Cid de; COIMBRA, Carlos A. Q. (org). Ciência em foco: o olhar pelo cinema. Rio de Janeiro: Garamond, 2008. p.161-174.

GODAWA, Brian. Cinema e fé cristã: vendo filmes com sabedoria e discernimento. Viçosa, MG: Ultimato, 2004.

JAGODZINSKI, Jan. The Truman Show: a symptom of our times? Or, a cure for an escape attempt! Psychoanalysis, Culture & Society, England, 10, 2005. p.61-78.

SCHAEFFER, Francis. A morte da razão. 8 ed. São José dos Campos: Fiel/ABU, 2001.

___________________. Como viveremos? Uma análise das características principais de nossa época em busca de soluções para os problemas desta virada de milênio. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.

___________________.O Deus que intervém: o abandono da verdade e as trágias consequências para a nossa cultura – a única esperança na verdade histórica do Cristianismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.

SIRE, James. O universo ao lado: a vida examinada – um catálogo elementar de cosmovisões. São Paulo: Hagnos, 2004.

THE TRUMAN Show. Direção: Peter Weir; roteiro: Andrew Niccol; produção: Ed Fedman, Andrew Niccol e Scott Rudin; elenco: Jim Carrey, Laura Linney, Noah Emmerich, Ed Harris, Natascha McElhone, Holland Taylor, Brian Delate, Blair Slater, Pete Krause, Heidi Schanz, Ron Taylor; duração:103 min. EUA: Paramount Pictures, 2001. 1 DVD.

WEIR, Peter. Weir'd Tales: an interview with Peter Weir. Tabula Rasa, issue 2, april 1994. Entrevista concedida a Kyla Ward. Disponível em: acesso em: 09 nov. 2009.

__________. Peter Weir on: Movies, madness and Monty. Venice Magazine, 1998. Entrevista concedida a Alex Simon. Disponível em: . Acesso em: 09 nov. 2009.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

LIBERDADE OU AUTONOMIA? ... [8]

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS


A envolvente luta de Truman para resgatar a sua liberdade envolve o espectador, que, por vezes, se percebe torcendo para que o seu casamento seja rompido, e as estruturas sejam quebradas a fim da realização do protagonista. Ainda assim, o resultado não é exibido na obra. A escolha por uma vida “autônoma” produz novos conflitos, não exibidos pelo diretor.

O poder de sedução de obras desse perfil deve deixar a igreja atenta. Condenar as artes e a observação de filmes dessa natureza – que muitas vezes retratam de maneira fidedigna alguns dilemas do homem contemporâneo – não parece postura sábia.

Ao mesmo tempo, não analisar criticamente a cultura é se deixar levar no mercado das idéias, ficar ao sabor dos novos (e velhos) sistemas, sem referencial firme para sustentar o homem diante das crises.

A perspectiva Teo-referente busca resolver o problema, afirmando que existe o dilema da liberdade entre os homens. Mas Deus não é um carrasco mesquinho como Christof, e a solução não está na rejeição absoluta de padrões. A liberdade tem o seu lugar, mas a autonomia, não. A correção da perspectiva sobre a Redenção nos faz voltar os olhos para a Criação e a Queda: o homem foi escravizado, Cristo é o libertador[10].


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[10] Romanos 6 lida com a questão da escravidão humana. Em Cristo o homem é liberto da escravidão do pecado, e passa a ter Jesus como o seu Senhor.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

LIBERDADE OU AUTONOMIA? ... [7]

2.3.4 Outros temas


O filme permite várias reflexões, tratadas de maneira completa em outros artigos científicos, por vários pesquisadores dos mais diversos âmbitos no contexto acadêmico.

A perspectiva filosófica tem analisado a obra a partir da noção de simulacro[8], proposta por Gilles Deleuze (FELDMAN, 2008). As questões a respeito da realidade que nos cerca – até que ponto são fabricadas, e em que medida são legítimas – têm sido investigadas por pesquisadores desta linha.

No campo da psicanálise, pesquisadores como Jan Jagodzinski (2005), têm observado o filme a partir da perspectiva lacaniana[9] para refletir a respeito dos reality shows e seus efeitos sociais.

A Teologia e a Filosofia da Religão observam tentativas como a de Deane-Peter Baker (2002), no sentido de pensar categorias e doutrinas teológicas no filme. A análise mencionada, por exemplo, faz a relação entre o argumento transcendental e o pecado original no Show de Truman.


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[8] Gilles Deleuze distingue, no idealismo de Platão, as cópias-ícones e os simulacros-fantasmas. [...] Questionando o modelo platônico da mímesis e do simulacro, o filósofo de Logique du sens (1969) propõe uma reversão do platonismo: promove o triunfo do simulacro, que nega tanto o original quanto a cópia , criando um jogo, no qual os signos descobrem-se máscaras’”. SIMULACRO. E-dicionário de termos literários. Disponível em: <http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/S/simulacro.htm>. Acesso em: 10 out. 2009.

[9] “Fortemente marcado pela lingüística moderna, Lacan propõe uma nova leitura de Freud, à luz da análise estrutural, e introduz na psicanálise o modelo lingüístico que já se havia imposto em biologia e nas outras ciências humanas” LACAN, JACQUES. In: BARAQUIM, Noëlla. Dicionário universitário dos filósofos. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

LIBERDADE OU AUTONOMIA? ... [6]


2.3.3 Cosmovisões


Torna-se tarefa difícil definir uma cosmovisão em obras cinematográficas, pois muitas vezes elas trazem elementos de várias perspectivas. A síntese, no entanto, não oculta as noções dos produtores. A ênfase sobre a liberdade, por exemplo, traz consigo influências do existencialismo, do niilismo, e do pós-modernismo.

Godawa (2004, p.66) indica a relação entre estas noções, demonstrando que há influência de Niestzsche – o "pai” do niilismo – sobre o existencialismo. Ele também ressalta o desejo de liberdade como marca da corrente existencialista.

Embora alguns dos pensadores modernos mais conhecidos que abraçaram o existencialismo sejam Jean-Paul Sartre (1905-1980), Albert Camus (1913-1960) e Karl Jaspers (1883-1969), suas raízes podem, em grande parte, ser rastreadas até dois nomes: Soren Kierkegaard (1813-1855), um cristão, e Friedrich Nietzsche (1844-1900), um ateu. […] por enquanto gostaria de focalizar as três ênfases da visão de mundo existencialista em filmes contemporâneos: (1) o acaso se sobrepõe ao destino, (2) a liberdade se sobrepõe às regras e (3) a experiência se sobrepõe à razão.

Para Sire (2004, p.121) o Existencialismo é uma resposta ao Niilismo. Ainda assim, traça as origens de ambos – pelo menos do existencialismo ateísta – no naturalismo. A mesma ênfase sobre a liberdade é definida como Sire (2004, p.126) como uma das proposições básicas do existencialismo.

[…] segue-se que cada pessoa é totalmente livre. Cada um de nós não é obrigado, mas radicalmente capaz para fazer qualquer coisa imaginável com nossa subjetividade. Podemos pensar, ter vontade, imaginar, sonhar, projetar visões, considerar, ponderar, inventar. Cada um de nós é rei do seu próprio mundo subjetivo.

A justificativa de Godawa para a relação entre o existencialismo e o pós-modernismo está na afirmação de Sire (apud GODAWA, 2004, p.90) a respeito do primeiro como base filosófica para o último.

Grenz (2008, p.121) demarca a publicação de Assim falava Zaratustra, de Nietzsche, como o “início da gestação do período pós-moderno". Na medida em que o pós-modernismo advoga o fim das metanarrativas, buscando a liberdade em relação aos sistemas em alguma medida aprisionadores, como os sistemas religiosos, ele encarna o espírito do Show de Truman. Segundo Grenz (2004, p.72), “a perspectiva pós-moderna implica o fim do apelo a qualquer mito legitimador dominante, seja ele qual for”.

A visão de um homem covarde, escravizado pelo sistema e pelas pressões sociais, que, finalmente, decide romper com o seu padrão para buscar a autonomia também reflete a postura legitimadora e autenticadora do existencialismo, como descrito por Schaeffer (2001, p.46-7).

A possibilidade dos trocadilhos revela o espírito da obra. O “verdadeiro homem” (em inglês: true man – pronúncia idêntica à do nome Truman) é aquele que desafia os sistemas opressores à sua volta, que podem ser a sociedade, a religião, ou o próprio Deus (Christof, ou Christ off – "Cristo fora", como indicado em citação acima), e os transgride em um gesto de afirmação da sua autonomia.

A cena final, na qual Truman conversa, olhando para os céus com a voz de Christof, projetada a partir do Sol, indica a semelhança do homem falando com o seu Criador. O resultado proposto na obra é a libertação do homem em face da prisão religiosa ou divina. Estar no mundo de maneira autônoma, mesmo que inseguro, é melhor do que viver aprisionado.

domingo, 15 de novembro de 2009

LIBERDADE OU AUTONOMIA? ... [5]

2.3.2 A estrutura ou o motivo-base Criação-Queda-Redenção


Analisar a obra a partir da tríade Criação-Queda-Redenção permite o entendimento mais aprofundado da cosmovisão adotada pelos produtores. O filme não apresenta diretamente todos os pontos, por isso um caminho alternativo deve ser tomado na compreensão da obra.

O elemento claramente apresentado é a Redenção: Truman alcança o seu objetivo ao se contrapôr a Christof, saindo do estúdio (e do programa) para viver uma vida autônoma.

A partir da estrutura redentiva apresentada na obra, percebe-se o estágio ideal, do qual o homem foi alienado, e para o qual deseja retornar. Isso revela os demais pontos, a saber, a Criação e a Queda.

O estágio ideal de homem, segundo a obra de Weir, é o ser humano livre e autônomo. A Criação, na perspectiva dos produtores, aponta para um ser humano dirigido por si mesmo, uma “lei para si”.

A Queda reflete a perda desta identidade original, ou deste estágio ideal. Ela retrata os conflitos existentes na humanidade a partir da alienação produzida em algum ponto da história humana.

Na obra em foco, Truman perde a condição de liberdade quando é adotado pela empresa, e inserido, desde a infância, no reality show. É nessa escravidão, cumprindo o script de Christof, que ele lutará pela liberdade de ir e vir, de fazer as próprias escolhas, e de viver como lhe agrada.

A Redenção, conforme apresentado acima, é o resgate do estágio ideal – talvez não exatamente como era antes, mas certamente sem alguns dilemas produzidos pela Queda. Nesse contexto, Truman desafia a todos para garantir a sua condição de homem autônomo.

sábado, 14 de novembro de 2009

LIBERDADE OU AUTONOMIA? ... [4]

2.3 Temas e Cosmovisão


2.3.1 A estrutura de Godawa


Conforme Godawa (2004, P.46) existem elementos estruturais nos filmes que possibilitam a devida compreensão da história e análise crítica da obra, bem como possibilitam a percepção geral da redenção proposta no filme. Tais elementos, para ele, são: o tema, o herói, o objetivo do herói, o adversário, as falhas de caráter, a derrota aparente, o confronto final, a auto-revelação, e a resolução.

O tema é aquilo sobre o que a história trata. […] o propósito ou a moral da história, encarnado na trama” (GODAWA, 2004, P.46-7). Segundo o autor em referência, “o tema de O Show de Truman é: o homem encontra a verdadeira liberdade quando consegue controlar o seu próprio destino” (GODAWA, 2004, p.48).

O herói é o protagonista da narrativa. Aquele que possui maior destaque, e provavelmente aquele cujas questões serão resolvidas na busca da redenção. Na história de Truman Burbank não é difícil percebê-lo como o herói. Os conflitos e as demais cenas o têm como cento referencial da obra.

O Objetivo do herói é o sonho perseguido, o desejo a ser alcançado, aquilo que mobiliza o protagonista a buscar a redenção. Na história do filme analisado, a personagem principal tem por objetivo sair da cidade, bem como encontrar a sua paixão da juventude.

Há algo ou alguém para resistir ao herói. A personagem que se contrapõe à busca da redenção, atrapalhando-a ou a impedindo, é o vilão, ou adversário – como propõe Godawa (2004, p.49). Na obra em análise, o opositor é o criador do reality show – Christof –, o responsável pelo aprisionamento de Truman na cidade de Seahaven.

Em O Show de Truman, o adversário é Christof, que acaba sendo, no final, um símbolo de Deus. Não é coincidência que em inglês seu nome sugere “Christ off” [Fora Cristo], e que no final do filme ele fala com Truman como somente Deus poderia falar, com uma voz vinda do céu. Seu desejo é o bem de Truman, mas ele sempre acaba impedindo-o de ir para as ilhas Fiji, seu grande objetivo. (GODAWA, 2004, p.49).

A personagem principal do filme apresenta, como falhas de caráter, a inocência, o excesso de confiança em outras pessoas, bem como o seu medo de água, que o paralisa e o impede de sair da cidade.

A derrota aparente é o momento em que a busca dos objetivos do protagonista parece impossível de se realizar, pois todas as tentativas são frustradas, e a esperança começa a se perder. Um momento no filme é emblemático: Truman decide sair de sua cidade, então finalmente se vê diante do barco e do mar – a água que tanto lhe assusta. Em sua experiência de navegação, ele precisa lutar com o mar tempestuoso – artificialmente provocado pelo diretor, Christof, e a sugestão apresentada é de que ele finalmente será vencido.

Surge, assim, o confronto final entre o herói e o adversário. No Show de Truman, este encontro se dá após a batalha no mar. O protagonista nunca encontra Christof face-a-face, mas levanta a cabeça em direção aos céus, e ouve a voz dele. Neste momento o adversário tenta convencer o herói a permanecer no “lugar seguro” que é a cidade de Seahaven. “A intercalação de imagens e sons sugere muito um homem questionando o seu Criador, como ocorre em Jó, porém com resultados bem distintos” (GODAWA, 2004, p.52).

Em algum momento da narrativa entre o confronto e a resolução, o herói passa pela auto-revelação, quando as suas convicções e a busca dos seus objetivos são reavaliados e corrigidos. Diante do Christof poderoso e após lutar com o mar, Truman percebe que existe segurança em seu contexto, mas nada é melhor que a liberdade autônoma.

Finalmente, a resolução apresenta o fim do conflito, o resultado da busca do herói, e o desenrolar da redenção de maneira mais evidente. Para Godawa (2004, p.53) este elemento não é apresentado com clareza na obra.

Em O Show de Truman, a resolução é deixada em aberto. Em certo sentido, não importa como sua vida termina após sua decisão final de mudar, pois os criadores da história defendem que é melhor estar livre (mesmo com o perigo e a incerteza à frente) do que estar protegido debaixo do controle de uma divindade.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

LIBERDADE OU AUTONOMIA? ... [3]

2.2 Direção

Peter Weir dirige O Show de Truman. Australiano, nascido em Sydney, em 1944, o autor revela ter o desejo de sair de lá desde cedo (WEIR, 1994). A sua trajetória demonstra um pouco da busca de liberdade – ele começou a estudar artes e direito, mas abandonou os estudos para viajar pela Europa, depois voltando para trabalhar com filmes. Teve início com a televisão em 1967, mas só fez sucesso com Picnic at Hanging Rock (1975).

Em 1985 passou a filmar nos EUA, estreando com o filme A Testemunha. A influência das idéias de liberdade e autonomia já estava presente em suas obras desde este período. Percebe-se isso na reconhecida obra A Sociedade dos Poetas Mortos (1989), na qual a máxima Carpe Diem (aproveite o dia) é constantemente apresentada. Ainda neste filme, o suicídio é apresentado como uma escolha pela liberdade do personagem oprimido pelo pai. Ele revela essa inclinação em uma entrevista à Venice Magazine (WEIR, 1998).

O que o levou à Sociedade dos Poetas Mortos?

[...]Primeiro foi o tema de se levantar contra as autoridades, porque houve muitos períodos em minha infância e também como adulto, nos quais eu desejei me levantar e expressar minhas idéias, mas eu não fiz, e me arrependi na maioria das vezes. (Tradução livre)[7]

A apresentação de dilemas existenciais humanos é ainda apresentada em Sem medo de viver (1993), no qual a temática da morte e do pós-vida é apresentada, bem como a atitude humana a lidar com tais questões.

Embora com filmes de linhas diferentes, a presença de um padrão no sentido de lidar com questões existenciais humanas, e a busca pela liberdade autônoma parece ser estabelecida.

O Show de Truman (1998) trabalha idéia semelhante, apresentando a luta de um homem para viver segundo o seu padrão, longe da escravidão de um reality show no qual toda a sua vida é forjada.


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[7] What was it that drew you to Dead Poet's Society?

[...]First it was the theme of standing up to authority, because there have been many times during my childhood and also as an adult when I wanted to stand up and speak my mind, but I didn't, and I've regretted most of those times.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

LIBERDADE OU AUTONOMIA? UMA ANÁLISE TEO-REFERENTE DO "SHOW DE TRUMAN" [2]

2 O SHOW DE TRUMAN


THE TRUMAN Show. Direção: Peter Weir; roteiro: Andrew Niccol; produção: Ed Fedman, Andrew Niccol e Scott Rudin; elenco: Jim Carrey, Laura Linney, Noah Emmerich, Ed Harris, Natascha McElhone, Holland Taylor, Brian Delate, Blair Slater, Pete Krause, Heidi Schanz, Ron Taylor; duração:103 min. EUA: Paramount Pictures, 2001. 1 DVD.


2.1 Sinopse


O filme apresenta a história de Truman Burbank, o primeiro bebê a participar de um reality show desde o nascimento. É também o primeiro bebê a ser adotado por uma instituição. Desde os primeiros dias, Truman é exposto ao mundo através do programa “O mundo de Truman” (The Truman World). A sua vida é forjada dentro do maior estúdio de televisão produzido – a cidade inteira onde vive, com simulação de elementos como mar, sol e lua. Todas as suas experiências são construídas dentro do falso ambiente de um programa de televisão.

Para lidar com o jovem Truman que crescia em curiosidade, experiências traumáticas foram montadas, como a perda do pai, e o conseqüente medo da água – um possível meio de libertação e fuga da cidade.

Quando Truman se apaixona na juventude, a garota de quem gosta lhe alerta sobre a falsidade do seu mundo, e é retirada bruscamente de sua vida. Outra pessoa é colocada diante dele, que acaba se tornando sua esposa. Ela tem papel essencial no programa, pois tenta conter os impulsos de Truman, quando este deseja viajar ou fazer algo diferente.

Outras tentativas de fuga são desencorajadas ou impedidas por eventos manipuladores, como a suposta doença da mãe, que o impediu de ir em busca da mulher amada. Truman é um escravo das telas e de sua cidade. O seu universo é completamente falso, mas ele não sabe disso.

Aos poucos ele percebe incoerências em sua vida, como quando um holofote do estúdio cai perto dele, e os jornais informam que uma peça de um satélite caiu. Ou quando ele reencontra o seu pai como um mendigo na rua, e todas as demais personagens tentam separá-los, com sucesso. Uma interferência no rádio permitiu que ele ouvisse em seu carro as instruções dos bastidores do programa, que indicava todos os seus passos – para sua estranheza. Viu, também, que o elevador de um prédio era apenas a fachada para os bastidores do set de filmagem.

Em vários episódios como os citados acima, o protagonista percebe haver alguma interferência sobre a sua vida. Tal sentimento gera inquietação e o desejo crescente de romper com as estruturas que o prendem na cidade.

Após vários conflitos que decorrem desta tentativa de preservar a liberdade, Truman finalmente luta contra o seu medo da água, entra em um barco e decide fugir da cidade. Na fuga o diretor do programa decide investir contra o seu medo, criando uma tempestade no mar. Truman permanece firme, apesar das ondas quase o afogarem. Ele, então descobre o “fim do mar” - os limites do estúdio de gravação, e Christof, o diretor do programa, e aquele que se considera o pai do protagonista, decide conversar com ele. A cena final é um diálogo interessante entre Truman e o criador. Este tenta convencer o primeiro de que a segurança no mundo por ele controlado é melhor, mas recebe como resposta o gesto de autonomia de Truman, que decide sair do estúdio em busca de uma vida apenas por ele controlada.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

LIBERDADE OU AUTONOMIA? UMA ANÁLISE TEO-REFERENTE DO “SHOW DE TRUMAN”[1]


LIBERDADE OU AUTONOMIA?

UMA ANÁLISE TEO-REFERENTE DO “SHOW DE TRUMAN”

Allen Ribeiro Porto

allenporto@gmail.com

1 INTRODUÇÃO: FILMES E COSMOVISÃO

Costuma-se perceber com relativa facilidade os esquemas conceituais e sistemas de crenças/valores de determinados filósofos. Tratados filosóficos parecem advogar, de maneira mais direta e articulada, as visões de mundo que apresentam.

Possivelmente pelo contraste entre a clareza apresentada em obras desse porte – cujo objetivo é a apresentação direta e sistemática de determinada cosmovisão – e as obras artísticas, há quem considere estas últimas neutras do ponto de vista filosófico, exibindo apenas aspirações do espírito humano na busca pelo belo.

O observador mais atento, porém, perceberá que mesmo as acepções sobre o "belo”estão situadas dentro de um contexto filosófico. O belo em determinadas expressões artísticas é contraposto à noção de beleza em outras. Isto torna evidente um marco referencial que define as obras de arte: elas se percebem inseridas em uma tradição – articulada ou não – de enxergar o mundo.

Homens como Francis Schaeffer (2003, p.142) reconheceram a importância das artes na tradução e apresentação de cosmovisões ao povo. Segundo ele (SCHAEFFER, 2002, p.25), o caminho da disseminação de idéias tem início na filosofia, passando pelas artes, e finalmente alcançando a teologia[1].

A perspectiva da tradição na qual Schaeffer se insere, observa as artes como expressões culturais e veículos de idéias – catalisadores para que os sistemas filosóficos sejam entendidos e apreendidos pelo homem médio.

Exemplo disso está no cinema. Analisando obras cinematográficas da década de 1960, Schaeffer (2003, p.142-3) reconhece a filosofia ali presente.

Especialmente nos anos 60, as maiores declarações filosóficas às quais se davam ouvidos foram veiculadas por filmes. Filmes filosóficos como estes atingiam muito mais pessoas do que os escritos filosóficos ou até a pintura e literatura. Entre estes filmes podemos citar Ano passado em Marienbad (1961) de Alain Resnais, Tystnadem (1963) de Ingmar Bergman, Julieta dos Espíritos (1965) de Frederico Fellini, Blow-Up – depois daquele beijo (1966) de Michelangelo Antonioni, A Bela da Tarde (1967) de Luis Buñuel e A Hora do Lobo (1967) de Ingmar Bergman. Todos eles mostravam de maneira figurada (e de modo bastante intenso) como é ver o homem como máquina e também o que é tentar viver no campo do irracional. Nele, o homem é deixado sem categorias. Ele não tem como distinguir entre o certo e o errado, ou até entre o que é objetivamente verdadeiro como algo oposto à ilusão ou fantasia.[2]

Percebe-se, deste exemplo, que as obras artísticas – e o cinema em questão – não apenas não são neutras, no sentido de estarem destituídas de pressuposições filosóficas, como são mais eficazes em divulgar tais cosmovisões para as massas, sem a linguagem técnica e pouco acessível dos tratados filosóficos.

Schaeffer possivelmente faria a mesma análise na contemporaneidade: dentre as expressões artísticas, a música e o cinema parecem ter maior alcance, em contraposição à literatura, pintura, poesia, escultura e dança, por vezes classificadas como “artes elitizadas”.

O roteirista de Hollywood, Brian Godawa (2004, p.15) concorda com Schaeffer, e se contrapõe às afirmações que buscam classificar os filmes como “apenas histórias para entreter".

[…] nada poderia estar mais próximo de uma meia verdade. Embora seja verdade que a história é o alicerce de um filme, um exame da arte e da estrutura da narrativa mostra que o poder de atração dos filmes não é simplesmente que eles são “boas histórias” de uma maneira indefinível, mas que essas histórias falam a respeito de algo. Elas narram os eventos em torno dos personagens, que vencem obstáculos para alcançar algum objetivo e, no processo, são confrontados com a necessidade pessoal de mudança.[...]

Na perspectiva de Godawa (2004, p.15), os filmes caminham no sentido de buscar a solução para os conflitos apresentados na narrativa. Esse trilhar rumo à resolução dos problemas apresentados é considerado a salvação proposta pelo autor, ou, na linguagem de Godawa(2004, p.15), a 'redenção'.

Em resumo, a narrativa de histórias nos filmes resume-se à redenção, isto é, à recuperação de algo perdido ou obtenção de algo necessário. […] Os filmes podem ser basicamente histórias, mas essas histórias são no final, no fundo, acima de tudo e quase sempre a respeito da redenção.[3]

Com esta análise e sua devida ressalva, o autor em referência possibilita uma percepção dos filmes que busque compreender a cosmovisão apresentada a partir das estruturas redentivas propostas pelo autor. Nem todos os filmes terão uma proposta de redenção, como a ressalva 'quase sempre' na fala de Godawa deixa transparecer. Contudo, mesmo a falta de uma proposta de redenção demonstra uma perspectiva a respeito dela.

A compreensão possibilitada através do instrumental de Godawa se encaixa perfeitamente com a tradição reformacional[4], que tem como grande expoente o jurista e filósofo holandês, Herman Dooyeweerd. A adequação entre essas linhas se dá exatamente no aspecto da redenção. Segundo a perspectiva neocalvinista, o motivo-base adequado para se analisar a realidade é o “Criação-Queda-Redenção”, que se contrapõe aos motivos-base anteriores: Forma-Matéria, Natureza-Graça e Natureza-Liberdade. Dooyeweerd (1984, p.61)[5] explica esses motivos-base como elementos que regulam a percepção da realidade por alguém ou uma comunidade.

Este espírito de comunidade opera através de um motivo-base religioso, que dá conteúdo à engrenagem central da inteira atitude de vida e pensamento. No desenvolvimento histórico da sociedade humana, este motivo irá, para ter certeza, receber formas particulares que são historicamente determinadas. Mas no seu significado religioso central ele transcende todas as formas dadas historicamente. Qualquer tentativa de explicação dele em uma perspectiva puramente histórica, portanto, necessariamente se move em um círculo vicioso. (tradução livre)[6]

Na medida em que os filmes trabalham uma redenção, eles apresentam uma perspectiva sobre criação e queda, e, portanto, deixam patente a cosmovisão que os norteia. Esta, segundo Dooyeweerd (1984, p.61), pode ser de obediência, operada pelo Espírito Santo, ou de apostasia, caminhando para a “deificação da criatura”.

A presente análise caminha de mãos dadas com as visões acima apresentadas. Está baseada nos pressupostos Teo-referentes, especialmente na tradição calvinista e reformacional de Dooyeweerd, com aproximações de Schaeffer e Godawa. Este último, por seu trabalho específico de análise cinematográfica, será utilizado como marco referencial fundamental.

O filme utilizado para análise foi “O Show de Truman”, cujos dados serão oferecidos com maiores detalhes nas páginas que seguem. A escolha da obra se deu tanto pelo gosto do pesquisador, quanto pela percepção de elementos que possibilitam uma análise clara dos pressupostos envolvidos na produção.

A inserção cultural nada mais é do que o cumprimento do mandato do Éden. Observar criticamente a cultura, e contribuir para a sua produção, é tarefa do cristão tanto quanto o evangelismo pessoal. Isto confere à presente análise a devida relevância, na medida em que não a considera trabalho “menos religioso”, mas a reconhece em sua integralidade e valor no serviço a Deus e ao Reino.


________________________

[1] Segundo a proposta de Schaeffer (2002, p.25) a ordem é: filosofia – arte – música – cultura geral – teologia.


[2] Grifos do autor.


[3] Grifo do autor.

[4] Outras designações para esta corrente são: Neocalvinismo, neocalvinismo holandês e Escola de Amsterdã. Mais específicos, porém relacionados a esta tradição, são os termos: Filosofia da Idéia de Lei, ou Filosofia Cosmonômica, fundada por Dooyeweerd.

[5] No documento em PDF oferecido pelo Reformational Publishing Project, o trecho mencionado está na página 725.

[6] This spirit of community works through a religous ground-motive, which gives contents to the central mainspring of the entire attitude of life and thought. In the historical development of human society, this motive will, to be sure, receive particular forms which are historically determined. But in its central religious meaning it transcends all historical form-giving.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Artigos

Pretendo postar aqui os artigos mais densos que eu escrever. Ou aqueles que forem postados de maneira fragmentada no blog.

Além disso, publico outros textos que possam ser interessantes, como minhas monografias e quaisquer outros panfletos.

Os arquivos estão armazenados no 4shared, então ao clicar no link você será redirecionado para outra página, na qual deverá clicar novamente sobre o link de downloads. Não há grande mistério, mas se houver dúvidas, basta fazer contato.

Artigos

1. Missões em Crise (PDF, x páginas) - [em revisão]

2. Liberdade ou autonomia? Uma análise Teo-referente do "Show de Truman" (PDF, 12 p., 136kb)


Monografias

1. Do templo ao tribunal: contribuições da Reforma Protestante para o Direito (PDF, 52 p., 307 kb)

2. Um novo cântico? Uma análise dos louvores contemporâneos cantados nas igrejas batistas em São Luís - MA, à luz da Teologia Reformada - [em revisão]

Folders e Panfletos

1. A Reforma Protestante (PDF, 2 páginas, 5.3 Mb)